Monday, December 17, 2007

Morte, é apenas o começo - Parte IV

Pude ver quando aquele lycan foi se afastando, em seus passos pesados, olhares desconfiados para a orla da floresta. Ao meu lado minha espada ainda continha o sangue cauterizado do fedelho e meu corpo ainda doía. Togarini me trouxe de volta por algum motivo mais sombrio que vai além de nossos acordos, mas sei que Geburah não está nada contente com o meu retorno. Tenho me tornado insubordinada desde que reencontrei Alec. Ao ligar o carro, meus pensamentos pareciam buscar lembranças perigosas do meu passado e meu pé afundava no acelerador. Buzinas, brecadas bruscas e xingamentos, mas nada disso fazia eu diminuir minha velocidade. Ainda havia os rogares de praga de Julia, agora um tanto mais fracos pela distância que eu abria. Esta era a vantagem de ser uma Inquisidora. Saber os limites dos poderes de seus inimigos. Mas não era isso que me atormentava."

"– Há uma sobrevivente! Rápido, tragam a equipe médica, ela está em estado de choque!
– A realidade é uma mentira! É minha culpa! É minha culpa! Monstros existem! Eles me usaram!
– Rápido! Ela precisa de um calmante!
– NÃO! EU NÃO POSSO DORMIR! NÃO POSSO DORMIR! LARGUEM-ME! LARGUEM-ME! AAALEEEC!"


Um farol alto e uma buzina contínua me trazia de volta a realidade. Dor insuportável, luz a incomodar. Togarini deveria ter me dito que às vezes o corpo reage da mesma forma que um bebê reage ao nascer. Voltar da morte não era fácil. Pensamentos dispersos demais, atenção reduzida demais, lembranças demais.

"– Esta é a garota que perdeu os pais e o irmão?
– Sim, é a própria. Os pais foram assassinados de forma brutal. Seus corpos foram dilacerados, uma verdadeira chacina. O corpo do irmão ainda não foi encontrado.
– Senhores! Eu peço para que evitem este tipo de conversa. Mesmo estando sob tranqüilizantes que a deixam em um estado próximo ao coma, não sabemos o quanto o cérebro dela registra as informações externas.
– Estado pré-coma? Mas... Isso é um absurdo!
– Recomendações médicas. Alice já foi uma de nossas pacientes e tais surtos psicóticos apenas podem ser alcançados com anestésicos, tranqüilizantes ou até mesmo soníferos fortes que impedem a entrada dela em estado Alpha.
– Algum motivo específico?
– Pessoas com forte probabilidade a suicídio e sonambulismo, às vezes necessitam de tratamentos mais pesados."


– EU NÃO SOU SUICIDA! NÃO SOU! – Gritei esmurrando o volante para despertar daquelas lembranças. Recordações de uma vida trancafiada e dopada, sendo considerada uma louca, psicopata, suicida e sonâmbula. Eles nunca acreditaram quando eu falava que eu não podia sonhar. Aqueles idiotas tão arrogantes em suas falas...

"– Alice Lupin! É um nome interessante, ainda mais para quem tem olhos tão diferentes quanto os teus. Sabe... Eles vão te deixar trancafiada aqui pelo resto de tua vida e jamais acreditarão em tuas palavras, mas eu preciso confessar uma coisa para ti... Eu sei como trazer teus pais de volta!"

Lágrimas desceram à minha face. Luzes em espaço curto de tempo, sirenes. Solavancos bruscos.

"
O grito ainda podia ser escutado, as pessoas gritavam horrorizadas, eu não havia tido piedade alguma e meus olhos se encontravam com um brilho estranho. Eu podia sentir aquele beijo à minha face, lambendo o sangue que escorria minha pele clara, mas ninguém mais podia ver isso. Aquele ser que morria em minhas mãos era mais um desgraçado que devia ser sacrificado. Mas ele ainda não era o demônio que havia matado meus pais. Pude escutar o som de várias armas sendo engatilhadas, eu podia sentir a morte se aproximando e murmurando para mim.
– Ainda não é tua hora, minha doce Avatar!
Os passos eram cautelosos e a voz que se pronunciou possuía uma imponência que jamais eu me esqueceria.
– Alice Lupin! Você se encontra presa por homicídio culposo. Você tem o direito de ficar em silêncio, tudo o que disser, poderá ser usado contra você."


Meu carro encontrou algo no caminho, a porta se abriu bruscamente e então pude escutar aquela voz mais uma vez.
– Alice! Alice! Por Geburah, Mulher! O que você andou aprontando?
Senti aqueles braços me tirando do carro, o grito dele ordenando que trouxessem minha espada e que tirassem meu carro das escadarias do Bureau. Meu corpo era carregado às pressas, enquanto eu ainda podia escutar aquela voz.
– Por favor! Fique comigo! Alice! Vamos... Não desista agora! Se você chegou aqui é porque você não quer desistir.

Tuesday, December 04, 2007

Morte, é apenas o começo - Parte III

A criança sentiu a mesma dor lacerante que eu senti. Benditos fosse os laços sangüíneos dos Lupin. Alec não sentiria isso, muito menos a senhora sentiria, pois o que acontecia comigo, acontecia em um plano distante dos deles. A dor era igual a física, principalmente para mim, por ainda ter um corpo físico para o qual eu devia retornar. Quanto à criança, ela sentia a minha dor, acrescida na dor que trazia a morte que Togarini tanto esperava. Como foi gostoso murmurar ao ouvido do fedelho que apenas eu sobreviveria. Pude sentir o corpo da criança amolecer em minhas mãos, enquanto minha alma andava no limiar da morte. Agarrei aquela única chance que eu ainda possuía e logo pude sentir os braços me envolverem e aquele murmurar muito baixo.
- Usando parte de sua alma e de seu sangue para desfazer o feitiço, minha doce Lupin? - Aquela voz que sussurrava tão baixa em meu ouvido era única e nunca me senti tão aliviada de ser a voz dele que eu estava a escutar. - Um preço a ser pago e mais alguns anos sob minhas asas.
Naquela escuridão das asas de Togarini, pude ver aquela alma infante sendo rasgada em filetes que eu achava e, os considerava indivisíveis. Togarini se deleitava com aquela alma tão poderosa que eu havia ofertado em seu nome e quando pude sentir as garras de Geburah começando querer me arrancar dos braços do Arcanjo da Morte, o mesmo tocou-me o local ferido, murmurando-me uma simples frase:
- Ainda não é a sua hora, Avatar.
O que se seguiu, eu jamais poderia descrever. Apenas lembro-me de escutar um choro, murmurares e prantos uivados. Lembro-me do toque tão presente em minha pele e de desejar me erguer. Mas eu ainda estava fraca e sem condições de lutar ou dizer que não precisava de ajuda.
- Anciã. Ela precisa de ajuda. Precisamos tirá-la daqui se a senhora não estiver em condições de ajudá-la. - Comentou um jovem Lycan que tentava se aproximar da Anciã e da garota com cheiro de Alec. A Senhora ergueu os olhos para ele e mesmo estando tão abalada concordou em um breve menear de cabeça.
- Você está certo, Knary. - Murmura, deitando o corpo de Alice ao chão da cabana. Ainda um bocado abalada, ergueu as mãos e clamou a Grande Mãe Gaia para me soprar um pouco de vida.

Togarini observava de um canto e sorria, enquanto Geburah mantinha-se mal humorado.
- Não bastava ela ter a sua ajuda, agora terá ajuda daqueles que ela deveria exterminar. - Togarini riu quando escutou isso de Geburah, olhando para ele e murmurando - Não seja tão mal humorado, você sabe que Gaia não ajudará nossa Avatar. Mas também sabe que Alice não precisará disso, pois ainda não é hora dela partir. Não é mesmo, Geburah?

- É tudo culpa dela. Ela matou meu Pai, matou nosso filho. Está nos separando Alec. - Chorava Júlia. - "Eu vou matá-la. Eu vou matá-la sua desgraçada"
Não sei quanto tempo passei naquele estado. Apenas sei que depois de um tempo, despertei, sentindo um pano umidecido sobre minha fronte e um olhar aliviado ao ver que eu estava me recuperando. Por outro lado eu escutava ameaças e mais ameaças contra a minha vida. Júlia deveria estar há muito tempo fazendo tais ameaças e quando tentei me erguer para sair daquele lugar que eu estava a senhora me segurou, olhando-me com olhar de poucos amigos.
- Você não está em condições.
Suspirei e olhei para a senhora um pouco mais séria do que o normal.

Que olhar era aquele? Como ela mesmo tendo quase morrido, ainda conseguia causar aquele calafrio de quem parecia querer arrancar a alma dela naquele exato momento.
Pude ver o corpo dela recuando com meu olhar, pude ver o temor naqueles olhos, então ergui meu corpo, ainda sentindo-me fraca. pude sentir alguém colocando um sobretudo sobre meu corpo e entregar a minha espada. Não direcionei o olhar, mas sabia que não era a velha. Quem quer que seja apenas me acompanhou, me ajudou e me levou de volta para a Taverna por um outro caminho que eu não havia passado.
- Não sei quem é você mulher dos olhos de lobo, mas suma deste local. Desapareça de nossas vidas. Ao menos por um tempo.
Nada respondi para aquele Lycan. Eu apenas queria sair dali.