Monday, January 21, 2008

Conversas

Meus passos eram calmos naquele local obscuro. Não havia preocupações, nem mesmo eu estava alerta.
O vento permanecia parado, o silêncio inquebrável e o leve soprar da brisa, trouxe-me um sorriso aos lábios.
- Às vezes me perguntam, até quando deixarei essas coisas acontecerem.
A voz era serena. Grave mas ao mesmo tempo baixa e eu continuo meus passos, deixando minhas mãos ao sobretudo.
- Você podia ter interferido. - murmurei, erguendo meu olhar, para fitar aquela negritude à minha frente.
- Sim. Eu poderia, Alice. Mas se assim o fizesse, estaria me tornando como ele.
Observo de soslaio quem me acompanhava e ficava me perguntando se havia essa possibilidade, mas logo meneio a cabeça em negação.
- Mas para muitos, você é pior do que ele.
A risada que se seguia, era uma risada gostosa. O olhar arguto, vinha de soslaio. Ele buscava em minha alma o que eu realmente achava dele.
- Posso ser pior do que ele e você sabe disso.
Parei meus passos por um tempo, sentindo o meu cabelo roçar ao meu rosto, por ter notado algo ao chão.
- Eu conheço este lugar.
Ele suspirou de forma longa e então murmurou.
- Você sempre foge para cá. É aqui onde tudo começou.
Achei estranho tal comentário vindo dele, e então me virei. Encarei aquele semblante sereno, aqueles olhos escuros como duas jóias negras. Pude ver os cabelos dele se moverem, como tocados por uma brisa gentil que apenas o acompanhava.
- Você...
Ele se aproximou, tocando meu rosto com aquela mão delicada. Analisava meus traços e isso ficava claro pela forma que ele me olhava.
- Eu não podia dizer. Não podia exigir de você um sacrifício daquele tamanho, Alice.
Ele deixou a mão deslizar até a minha cintura e puxou-me para perto dele. Eu podia sentir sua outra mão afagando meus cabelos, poderia escutar o coração dele bater, se assim ele quisesse.
- Você estava com tanta raiva. Tão cega em sua ira. Não mentirei ao dizer que tal ira fora incômoda para mim. Eu estaria sendo hipócrita.
Riu de forma baixa, eu sabia o que ele queria dizer. Minha ira resultou nos sacrifícios mais sangrentos que pude ofertar a ele, mesmo assim ele nunca me dissera quem era que eu tanto buscava.
- Mas pude compreender, quando você aceitou a ajuda de Geburah, mesmo ele sabendo quem era seu alvo e sabendo que eu não havia contado a você.
Pude sentir, quando ele recostou o queixo em minha cabeça. A serenidade dele me impressionava por ele ser quem ele era.
- Mas...
Ele ergueu meu rosto, fazendo com que eu olhasse em seus olhos. Ele não precisava me explicar estava claro para mim.
- Era para você ter morrido naquela noite Alice. Quando Alec matou seus pais. Era eu quem guiava o corpo de Alec, junto com outros seres que estarão sempre presentes à vida dele.
Meu cenho franziu por um breve momento, mas ele me mantinha naquele abraço.
- Você tem direito de me odiar. Mas...
Ele pareceu-me pensativo por um breve momento. Talvez relembrando tempos passados, ou quem sabe escolhendo melhor as palavras que me diria.
- Foram seus olhos Alice.
Mais uma vez estranhei o que ele dizia e então pude sentir meu corpo se movendo. Não sei qual foi o momento em que me deitei, mas sei que eu estava erguendo meu corpo de uma cama, escutando aquelas últimas palavras.
"- Foram eles que pararam as nossas mãos naquela noite."

Thursday, January 10, 2008

Morte, é apenas o começo - Parte V

Meu corpo era levado às pressas, a pessoa que me carregava dizia para eu não desistir. Quantas vezes escutei aquela voz? Quantas vezes ela me saudou em meu retorno. Meu corpo era colocado ao chão, pois o frio daquele lugar era bem conhecido por mim. Eu podia escutar gritos confusos, podia sentir o sobretudo sendo aberto e ver aquele olhar inquisidor sobre a minha pessoa. Togarini estava ali, segurava o que parecia ser uma corrente fina de prata. Não sorria, apenas me olhava como se esperando uma reação minha. Geburah rangia os dentes, estava nervoso, pois dava para perceber que os poderes dele estavam sendo usados, contrariando-o em certo ponto. A ponta de sua lança repousava sobre meu pescoço e ele podia ver que não havia medo em meu olhar.
- Lute, Alice! Você não chegou aqui apenas para morrer em meus braços.
Não... Eu realmente não faria isso, não deixaria ninguém compartilhar o momento em que Geburah arrancaria a alma de meu corpo da forma mais dolorosa possível, tirando de Togarini o direito que ele tinha sobre minha alma. Anjos não são bons. Nunca foram. Entre eles também há trapaças, jogos sujos, ambições, cobiças, todos os pecados possíveis que você possa vir a imaginar e Togarini segurava aquela corrente, pois era a ultima coisa que ainda me prendia a ele. Ele até que não é tão mal, para um Anjo da morte que adora sacrifícios em seu nome. O que Geburah, nunca chegou a compreender é que usamos ele. Em sua sede de vingança, onde ele buscava a justiça acima de tudo, ele jamais compreendeu que o que eram simples mortes em nome da justiça, eram verdadeiros sacrifícios para o Anjo que sempre dediquei minha vida em busca do que era a minha vingança. Togarini nunca pode me contar que o verdadeiro demônio que eu tanto buscava era Alec, não por medo de me perder, mas por saber o quanto isso me abalaria. Já Geburah, fora a serpente no paraíso. Prometeu-me mais poderes, prometeu-me vingança, prometeu-me algo que ele jamais poderia cumprir e o pior... Eu me deixei enganar, cedi um espaço em meu corpo para ele, fiz geburah assumir o controle de algo que ele não deveria assumir e nem por isso Togarini me abandonou. Jean não compreende porque tenho tamanha devoção com um Anjo tão sanguinário, mas talvez, se ele apenas soubesse que fora Togarini quem me manteve "viva" todos esses anos, talvez então ele agradeceria este Anjo Negro.
- ALICE! ALIIICEEE!
- Acorde minha doce Avatar. Você sabe que ainda não é sua hora.
Pude escutar aquele grito de desespero. Pude sentir aquele corpo se debruçando sobre mim e os cabelos negros pendendo sobre minha face. Pude sentir aquele beijo aos meus lábios, tão cálidos e tão frios, fazendo-me rebuscar o ar. O abraço que se seguiu, não foi de quem me beijara, mas de alguém que derramava lágrimas e me abraçava.
- Bem vida... Bem vida... Bem vinda à terra dos vivos.