Wednesday, May 28, 2008

Entre Amigas

Lá estava ela. A grande Madeleine Noveau. Ela odiava o meu sarcasmo, quando eu conversava e tentava sondar seus sentimentos. Madeleine sempre soube esconder bem isso de mim. Principalmente nos tempos de hoje, quando ela descobriu o grande enigma da chantagem de Geburah sobre ela.
Não a culpo. Geburah sempre jogou baixo demais.
- Madeleine...
Madeleine voltou-se para mim, era tão estranho ver-la com aquele aspecto jovem e angelical, ainda mais quando eu a conheci com aspecto de uma mulher madura.
- Alice... – Respondeu-me com um sorriso fraco, retirando as mechas ruivas do rosto.
- Vejo que está melhor! – Continuou aquela conversa que ambas sabíamos que não fazia parte de nosso social. Sempre fomos “francas” umas com a outra.
- O que você fazia lá? – Fui direta no assunto. Jean tinha comentado que Madeleine estivera no local em que caçávamos o demônio e que fora ela quem dera cabo nele. Disse-me também que a criatura ao ser atingido por ela, ficara surpresa. Infelizmente Jean não sabia o que eu sabia.
- O de sempre. – respondeu-me sem muita cerimônia. Insinuava-me que estava a fazer o mesmo serviço. Qualquer um poderia se dar por satisfeito, já que Madeleine era alguém que também caçava criaturas. Mas há uma diferença entre eu e ela. Apesar de trabalhar para Geburah, um dos arcanjos que preza pela justiça acima de tudo, Madeleine se encontrava em uma fina linha política, por assim se dizer.
- Estava mantendo o equilíbrio, Alice. – interrompeu meus pensamentos.
- Como os deixa manipular desta forma? O muro um dia ruirá Madeleine e você terá que escolher de que lado você ficará! – Vociferei. Revoltava-me ver tão passiva em toda aquela história. Madeleine sempre fora sábia, sempre soube resolver os casos. Ser justa e eu não tinha certeza se ela eliminara de vez aquele maldito demônio.
- Da mesma forma que você é manipulada, Alice. Você também andou em uma linha tão fina quanto a minha. Sabe tão bem quanto eu que tudo muda de figura, quando estamos com nossos parentes na linha do tiro.
Por um momento senti meu coração pulsar forte, minhas mãos gelarem. Poucos conseguiam me fazer sentir impotente daquela forma.
- Pare de revistar o local, Alice. Pare de procurar aquele demônio.
- Não... Posso...
- Sim. Você não só pode como deve.
Era uma ordem. Madeleine simplesmente estava ordenando que eu parasse com aquela busca.
- Só posso interferir naquilo que está em minha alçada, Alice. Por favor! Não quero perder a única amiga que possuo.
Talvez tivesse sido melhor ela dizer que sou a única pessoa em quem confia.
- Obrigada por ter interferido, naquele dia. – murmurei, enquanto saía, detestava ficar devendo favores. Odiava pensar que assim como Madeleine, eu poderia ficar numa linha muito fina ao ponto de desejar de vez romper com meus grilhões e deixar Geburah e Togarini brigarem por minha alma.
- Você sabe a escolha que fez Alice e é isso que a corrói. Ter deixado sua integridade ser corrompida...
Eu queria responder, queria dizer que a integridade dela também fora corrompida, mas no fundo eu sabia que Madeleine fez o que fez, para descobrir quem era o Pai dela e o Libertar, mesmo sabendo que isso custaria a liberdade dela.

Tuesday, May 13, 2008

Entre Pais e Filhos

A peça escura movia-se com calma sobre aquelas casas brancas e negras e era repousada diante de tantas outras mais que aguardavam o momento certo. Ele estava pensativo, sereno e belo como sempre.
- Como está tua amiga? - Perguntou-me sem olhar em meus olhos, analisando ainda o movimento que tinha feito, deixando o indicador repousar em seus lábios.
Observava-o pensativa, escolhendo as palavras que iria dizer e pude sentir que ele aguardava a resposta.
- Sempre foste sábia em tuas palavras, jamais foste impulsiva, mas algo tem te incomodado.
Suspirei com aquela constatação, pois ele estava certo e observando a posição das peças respondi de forma calma.
- Ela está bem. O'Toole também está bem, mas eles não encerrarão as buscas no local.
Ele erguia seus olhos, fitando minha alma. Ainda me pergunto se as pessoas realmente resistiam àquele olhar.
- Teus olhos te traem, Madeleine. Eles permitem que tuas emoções sejam sondadas, mostrando-nos teu elo fraco.
Respirei fundo. Era impossível manter meus sentimentos tão bem escondidos dele. Não eram apenas meus olhos que me traiam, mas o elo que ambos possuímos um com o outro. Nosso sangue.
Mais passos e pude observar outros olhares. Olhares mais sagazes e até mesmo mais traiçoeiros. Três pessoas mais chegavam. Uma sorrindo e fazendo um breve meneio cortês com a cabeça, o outro se aproximando, beijando-me a cabeça e bagunçando um pouco meus cabelos e o outro passando batido, acendendo um cigarro e se colocando ao piano.
- Cinzas, Cinzas, nós todos voltaremos. - murmurou o terceiro que chegara, fazendo um sorriso surgir naquele que se encontrava à minha frente e aos outros dois que me cumprimentaram.
- Sabes que não podes ficar interferindo o tempo inteiro, Madeleine.
A conversa voltava, me fazendo perceber que eu estava em xeque no tabuleiro. Não podia ser... Eu havia feito o movimento correto e ele me olhava novamente. Sabia pelo seu olhar que ele me censurava pelo simples fato de ter pensando que ele trapaceara.
- Ela é minha amiga. Uma das poucas que possuo. e Você também não poderia ficar interferindo.
Um riso baixo vinha dos outros dois.
- Ela o colocou em xeque, irmão. - Respondiam em uníssono, conseguindo fazer meu pai sorrir e olhar para mim.
- Um dia compreenderá, Madeleine, que entre pais e filhos, a figura muda de sentido.
O som das teclas do pianos se pronunciam, no que parecia uma insatisfação e pude perceber o rapaz que estava lá se erguendo e saindo da mesma forma que entrou, murmurando em tom baixo:
- Xeque-mate!

Saturday, May 10, 2008

Pensamentos Distantes

Ainda relia aquele pequeno bilhete em minhas mãos. Aquelas letras tão bem desenhadas mostravam a delicadeza existente na pessoa que escrevia, mas Alice sempre comentou que nas almas mais belas, é que se encontravam os maiores problemas.
Dizia-me isso, toda vez que eu comentava sobre meu fascínio por ela. Em meu "nervosismo" sempre ficava parecendo que eu mais fazia para espetá-la e tirá-la do sério do que ter alguma seriedade de minha parte.
Bom...
Talvez eu realmente seja fascinado por ela, mas às vezes odeio quando Thorn me questiona se é um sentimento verdadeiro ou se é a síndrome do Principe Encantado tentando salvar a mocinha.
Não que eu tenha ciúmes do necromante que a conhece há mais tempo do que eu, ou pelo fato de parecer que ele e a Alice são telepatas com aquelas trocas de olhares entre eles.
Não.. Eu não tenho ciúmes ou inveja ou...
- Fique atento O'Toole.
Meus devaneios foram cortados com um balde de água gelada devido àquela fala de tom baixo de quem sequer olhava para trás. Tudo bem que eu estava um pouco distraído, com aquela carta de letras tão bem desenhadas, pensando em tantas outras coisas, pulando para o que mais me assombra os pensamentos...
- Não seria melhor esperar o reforço?
Sim. Eu sempre retruco a Alice quando estamos para entrar em uma missão contra um possível demônio e sempre contesto que loucos psicopatas e desejosos de almas não podiam ter tamanha delicadeza em suas letras e cartas manuscritas. Mas, Alice como sempre me respondia da forma que ela sempre me respondia. Entrando na boca do leão com a arma empunhada e os olhos atentos aos eventos e não à razão. Tive apenas tempo de guardar a carta ao bolso e ir às pressas atrás da louca e tão fascinante, Alice.
- Alice? - Busquei minha parceira com murmurares. Tudo estava escuro, mas o local cheirava a corpos pútrefes.
- Alice? - Perguntei mais uma vez e ela não me respondia de forma alguma. Suspirei exasperado, porque ela sempre fazia isso?
- A...
Malditos sejam esses seres infernais, nunca senti tamanha dor em minha vida ao sentir o corpo sendo tacado na parede, tal qual uma bola de squash. A arma caiu ao chão. As costelas, ombro e todo meu lado direito doia. A cabeça girava, a visão começava a escurecer e a única coisa que eu conseguia dizer foi...
- A...li..ce...
Pude escutar rugidos, sons de tiro, som de espada batendo em algo sólido. Pude sentir minhas forças querendo me abandonar. Invocações sendo feitas, mais sons de tiros, de batalhas, mas o que realmente me deixou preocupado, quando comecei a erguer o meu corpo e minha visão voltava ainda meio desfocada, foi ver, não Alice com seu olhar furioso empunhando sua espada, mas Madeleine Noveau, empunhando uma espada semelhante, fitando aos olhos do que parecia ser um demônio que incrédulo. O local inteiro começava a desabar. Aquelas duas figuras pareciam imagem de uma foto grudada em minha mente, até um arrepio intenso me fazer olhar para um canto.
- ALICE! - Gritei em desespero, correndo com as parcas forças que tinha, deixando meu rastro de sangue pelo caminho, caindo de joelhos ao chão para tentar erguê-la. Mais uma vez ferida. Extremamente ferida e o som...

- ESTÃO AQUI!!!
Gritos, escuridão, vozes agitadas, imobilizações...

"Os Agentes do F.B.I. sobreviveram após o desabamento de um prédio. O Serial Killer que perseguiam, morreu durante o acidente. A cidade de Nova Orleans agradece aos esforços desses agentes que deram fim a um dos casos que vinha assombrando os turistas..."

- Da Alice eu até espero um comportamento suicida, mas do O'Toole, eu jamais esperaria isso.
Aquela voz... Como aquela voz me incomodava. Ainda mais porque o maldito Thorn estava certo, mas eu não deixaria barato.
- Eu precisava salvá-la... - Murmurei desgostoso, sentindo dores no corpo inteiro, sabendo que estava em uma maca... Mas com certeza não estaríamos em um hospital... Não por conta de Alice. E se não sou eu para protegê-la enquanto dorme, quem protegeria a todos nós?

- Sim... Você precisava salvá-la.. Principe Encantado, mas quem salvou vocês dois é uma das pessoas que você odiaria ficar devendo favores...
Odiaria ficar devendo favores? Mas quem? Então veio a lembrança... Sim.. Alice estava caída, extremamente ferida... Madeleine Noveau estava na cena. Tinha atingido o demônio mortalmente.. o Demônio estava...
Por Deus... Os demônios nunca morrem daquele jeito... ele olhava para Noveau.. Incrédulo.. Não havia ódio naquele olhar... apenas.. incredulidade...