Saturday, May 19, 2012

Post Mortem – VII


O tempo corria de forma diferenciada desde o momento em que me sentei àquele sofá.
O rapaz de traços rudes observava o caixão feito em vidro, que mantinha intacto o corpo do rapaz que havia sido depositado em seus braços.
Era notável vê-lo pensativo e agradável sentir seus sentimentos confusos.
– Sinto-te confuso... Em dúvidas dos propósitos que seguias antigamente. – Espezinhei-lo, sorrindo sarcasticamente.
– É estranho Alice. Deveras estranho... Jamais imaginaria uma situação como esta...
Distraí-me enquanto o escutava e observei o belo corpo que repousava em um sarcófago translúcido, ele trazia uma estranha sensação de paz, um elo sanguíneo... Um quê de almas ligadas...
– Eu não poderia deixá-lo... É como se...
“Minha volta a este plano dependesse do sacrifício dele...” – pensei sem completar a frase anterior, mas estava claro aos olhos do viking o que se passava em minha mente.
Ele me conhecia melhor que ninguém...
– Será difícil explicar ao O’Toole...
“O’Toole... O’Toole... O’Toole...” – Franzi meu cenho tentando recordar algo mais a respeito desse nome.
– O Príncipe Encantado... – Murmurou Thorn, buscando ver algo mais em meus olhos...
Um sorriso se espalhou fino em meus lábios, porém meus olhos continuavam vazios, observando sempre o corpo repousado no caixão tal qual Branca de Neve à espera de seu beijo mágico...
– Devo comunicá-lo, Alice? – Thorn murmurou novamente, tentando arrancar-me de meus devaneios...
Aproximei-me do caixão e acariciei o vidro.
– Devo comunicá-lo...
Meus olhos voltaram a ficar vazios e toda aquela sensação frívola desaparecera. Aquele corpo no caixão serviu a seus propósitos. Sentiria falta dele, mas agora o mundo precisava compreender que ao se brincar com a morte, era comigo que eles iriam se entender.
– Temos coisas mais importantes para fazer, Thorn... Por enquanto, deixe o Príncipe Encantado em paz. Ambos sabemos que ele em breve irá me procurar... Por vontade própria.
Beijei levemente o sarcófago e murmurei...
– Descanse em paz... Togarini...





"O cheiro da morte está em todo lugar. O silêncio atordoa não deixa você pensar. Você sente em sua espinha, você sente no ar. O medo te consome você reza para acordar".
(Zumbis do Espaço)

Sunday, December 25, 2011

Post Mortem - VI


Os sinos bateram por um tempo prolongado, ensurdecedor...
Milhões de vozes alcançavam o céu em um louvor irritante, asqueroso.
Aquilo entorpecia meus sentidos e a sala voltava ao breu antes da luz de velas, antes do sangue derramado...
Minha cabeça latejava e os sinos não paravam...
Flashs de luz cortavam a escuridão em movimentos rápidos e meu corpo tremia de tamanha tensão que ele se encontrava.
Mais uma vez eu encontrei o corpo daquele rapaz que eu não queria deixar sozinho naquele limbo maldito.
Voltei a recostar meus lábios aos dele sentindo aquele sabor inigualável. Doía-me o coração ao mesmo tempo em que meus sentidos se amorteciam.
As luzes de velas voltavam, assim como o entoar de um rito sagrado e respeitoso.
Minhas mãos se ajeitaram ao corpo do rapaz e à medida que meus olhos ficaram vazios eu o ergui junto comigo.
Nossos cabelos se mesclaram no negrume que possuíam e trouxeram carícias de uma despedida prolongada que eu não queria me permitir...
Vir-me-ei e dei alguns passos, carregando-o para longe daquele limbo, para fora daquele círculo feito em sangue e runas...
Pude ver um olhar confuso... Pude escutar as palavras que gritavam ao peito de quem me chamou com tamanho respeito...
– Enterre-o... – murmurei depositando aos braços do homem de traços rudes, o rapaz que eu trouxe comigo...
Sentei-me no primeiro local que encontrei e fechei os olhos...
Ah! O doce e suave aroma das lágrimas... Como era bom senti-lo aliado à descrença, à alegria, e a uma surpresa...




"Batem os sinos pequeninos, sinos de Belém..."

Thursday, December 22, 2011

Post Mortem - V


Mais uma vez meu corpo ergueu...
Meus olhos varriam o local, pois havia sangue, mas não havia corpos.
Corpos? Sim! A quantidade de sangue não me indicava isso, mas o aroma diferenciado de sangues misturados.
Um casal, nada mais que um casal assombrado por natais passados. Havia medo naquele sangue; naquelas paredes; naqueles cacos espalhados...
Havia implorares e recitares... Havia tempo que eu não escutava aquele tipo de recitar, aqueles símbolos que foram desenhados ao chão...
Mais alguns passos e o frisson aumentava com a identificação de mais duas vítimas, mas estas não estavam mortas... Parecia-me que elas estavam desaparecidas...
Outro casal... Um tanto quanto mais jovens... Mas há algo diferente nesse quadro, apesar de achá-lo semelhante com algo...
No quadro inicial havia raiva... Não! Na verdade era a famosa ira descontrolada...
Ira... Medo... Tranquilidade...
“– Foram seus olhos...” – murmuro baixo, arrepiando-me por completo.
Lembranças perdidas que se mesclavam com a visão... Não! Elas se mesclavam com o sabor que não saía de meus lábios.
Mais uma vez as imagens pareciam dissolver. Ou assim tentavam, mas não conseguiam...
Aquele símbolo ao chão murmurava mais coisas que me mantiveram o observando, dando atenção ao que ele cantava... Declamava...
Havia respeito... Algo mais...
Mais alguns passos foram dados, pois não me interessava às almas dos que não partiram, mesmo sendo almas de infantes...
“– O que estou pensando?” – o mesmo murmurar. Quase sem emoção, quase sem vida.
O dia corria, assim como correu o dia anterior...
Algo iria acontecer...
Nesse local...
Nessa casa...

Wednesday, December 21, 2011

Post Mortem - IV


Escuridão...
E aqueles lábios macios...
O ar saia em um suspirar desanimado e meus olhos se abriam aos poucos.
Ali estava aquele rosto másculo e ao mesmo tempo com traços delicados. Ele mantinha seus olhos distantes, vazios, mas por que pareciam aliviados?
Mal pude dizer-lhe adeus, ele apenas partiu, ali, em meus braços...
Lentamente meu corpo foi erguendo. Eu não queria partir, não queria deixá-lo ali naquele lugar escuro e sem vida.
Seu corpo foi se distanciando, se desfazendo em névoa ou trevas, não estou bem certa sobre este fato. Talvez fosse apenas uma lembrança com o mesmo sabor amargo que eu sentia em meus lábios...
Não, aqueles lábios que beijei não eram amargos e sim macios com o sabor de liberdade, um sabor inesquecível.
Meus dedos relembravam aquela maciez, enquanto meus pensamentos vagavam por outras paragens.
O aroma das lágrimas, da angústia apertada ao peito. De mãos feridas e desejos de suicídio... Homicídio... Fratricídio... O cheiro de morte empesteava o ar.
Respirei fundo e fechei os meus olhos. Escutava murmurares em uma língua conhecida. Havia rouquidão naquela voz que me deixava curiosa. Meu cenho franziu à medida que meus passos me guiaram àquele lugar.
A escuridão foi sendo trocada por uma suave luz de velas... Na verdade várias velas se espalhavam pelo local... Traços riscados à madeira úmida de sangue... Sangue fresco recém derramado salpicado por paredes e bolas de vidro quebradas com o impacto...
Abaixei-me e senti com as pontas dos dedos a viscosidade do sangue. Minha pele arrepiou levemente ao me deparar com aquela árvore caída ali...

Tuesday, August 24, 2010

Post Mortem – III

Ela estava ali, pálida em meus braços, quando recebi seu coração em minhas mãos. Geburah urrou a morte da feiticeira, jurando pragas contra o irlandês, mas nada mais podia ser feito.
Há muito vejo as artimanhas do Arcanjo da Justiça no arrebanhar de humanos que estão ligados à morte, vendo seus traiçoeiros movimentos para retirar o direito daqueles que possuem as almas dos humanos por direito.
Tínhamos os destinos de cada um traçado, sem interferirmos no trabalho de nossos irmãos. Lúcifer já havia se renegado e Mikhael cantou as glórias de tê-lo expulsado, mas os mais antigos que participaram da primeira batalha sabiam que os cantos eram cantados de maneira errada.
Não devo mergulhar em lembranças passadas, pois cá está Alice serena em meus braços.
Alice precisava romper seus próprios laços, não bastando isso precisava que Geburah traísse os acordos que ambos possuíam. Minha avatar não desejava apenas sua liberdade e quão belo foi seu movimento ao fazer o irlandês voltar às suas raízes.
Christine havia traído suas raízes, rompido os juramentos e lançado seu conhecimento ao julgamento dos que abominam a magia. Aprisionou em códigos de honra uma gárgula que teria cuidado da prole sem que fosse assim obrigada, preocupou-se apenas com sua linhagem, condenando à morte seus antepassados.
Mas tudo isso é passado e posso escutar o som de corações partidos. Um se encontra desolado, pois perdera o rumo que deve tomar, lamentando-se pelos dias que se seguirão sem esses olhos dourados que se encontram fechados. Outro chora em sua alma, pois havia se prometido nunca mais se apaixonar. Compreendo o medo de meu outro avatar, pois a perda para ele é muito mais significativa do que ele se permite julgar.
Talvez a dor que o viking sinta, seja a que fere mais a minha maldita alma fria.
— Foram seus olhos que pararam as nossas mãos naquele dia. – Foi o que eu disse uma vez para Alice, mas creio que tal frase nunca tenha sido compreendida pela mulher de alma ferina. Ela trespassou minha alma...
— Em seus olhos... Vi que sua alma jamais seria subjugada... Por mais que todos nós tentássemos, nós teríamos apenas aquilo que você nos permitiria... Ter. – Murmurei deitando-a no limbo, onde o tempo não transcorria.
Recostei meu semblante ao dela, franzindo o cenho em minhas decisões.
Apenas Lúcifer criava mundos do nada, apenas ele voltaria no tempo para criar novas linhas temporais, mas nem mesmo eu desejo engrandecer-me perante o primeiro, então dou à Alice meu último beijo.

Tuesday, July 27, 2010

Post Mortem – II


O tiro ecoou mesmo em meio aos gritos, feitiços e lamuriares. Aquele som cresceu qual rugido de Caronte em busca das almas descarnadas. Por um momento tudo silenciou e Jean mais uma vez fraquejou.
Seu pranto cresceu na obscura vontade e seus lábios moviam em implorares.
Era o amargo fim de uma vida promissora, da inocência perdida de sonhos e desejares. Seus olhos lacrimosos pediam mais um fim, pois Alice não estava ali para impedi-lo. Sim, ele havia disparado sua arma, havia trazido a justiça tão amada, tão odiada, tão amargurada.
Como pudera deixar seu ódio crescer? Como fora fácil obedecer. Destinos da vida que ele tão bem assumira, mas que também negara. Ainda podia bem escutá-la.
Frágil brilho prateado que se erguia. Suas lágrimas agora de nada valiam. Ela partira sem nem ao menos dizer adeus, pois suas últimas palavras foram para chamá-lo de tolo.
— Como fui tolo...

Murmurou em desgosto, compreendendo a amargura que sempre a assolara. Via agora todos os mortos caídos e aqueles olhos que um dia o julgariam.

— Como fui tolo...
Sua mão tremia, acariciando o que trouxera o grito de Caronte, tal qual uma Bean-Sidhe faria ao anunciar sua morte.

— MAAALDIIITOOOO!!!

Gritou em afronta, trazendo a presença funesta à sua boca.
Fechando os olhos esperou e praguejou, ao perceber que o fim não o alcançou.

— Se eu fosse a Alice, com certeza o mataria.

Não podia culpá-lo pela dor que sentia, mas Jean precisava dar mais uma chance à sua vida.
Puxei os cabelos do príncipe desolado e ergui sua cabeça para o cenário.
— Você também foi enganado.
Mais adiante ele podia ver o corpo da feiticeira sendo arrastado. Não por anjos, tão pouco por demônios, mas por criaturas de contos de fadas.
— Finalmente você rompeu seus laços, meu caro Príncipe encantado...
Sorri para o rapaz desolado e observei Togarini ali parado...
Acolhia o corpo de Alice em seus braços, recebendo o coração inquisidor em suas mãos.
— É o fim? – perguntou-me O’Toole ao ver os dois partindo.
E com uma pontada de saudades que jamais deixei transparecer em meus olhos, murmurei.
— Nunca se sabe...

Tuesday, July 13, 2010

Post Mortem - I

Ela surgiu do nada, tão rápida quanto uma sombra a se mover. Alice estava cansada, exausta ao ponto que nem seu sexto sentido poderia alertá-la. Meu coração parou quando vi seus olhos se arregalarem, seu rebuscar do ar sendo curto e as mãos dela vacilarem. Vi quando seu corpo teve um último espasmo, enquanto seu coração era arrancado e aqueles olhos verdes brilharam incrédulos e em certo ponto aliviados.
Não, eu não podia crer que o coração de Alice havia sido arrancado com tanta facilidade pelas mãos de uma mulher ruiva em vestes medievais azuis. Muito menos podia crer que naquele momento agi por impulso, disparando minha arma, gritando em dor pela morte de minha parceira.
Sabia que se fossem ferimentos graves ainda teríamos como trazê-la de volta. Thorn sempre conseguiu, mesmo tendo dito que estava cada vez mais difícil. Ainda por impulso invoquei a mão direita de Deus, tendo a desagradável surpresa de que ele não me agraciaria com sua presença. Abandonara-me no momento em que mais precisei trazer justiça acima de tudo. Gritei em rebeldia, amaldiçoei o arcanjo que me acompanhou por tantos anos e que agora me recusava a morte da feiticeira. A verdadeira algoz de Angela e Alice.
Thorn parecia mais lúcido, trazia todos aqueles mortos de volta à vida, ambos evocavam magias, enquanto eu tinha apenas minha arma e algumas poucas magias em minha fútil sabedoria.
Quantas vezes Alice me disse que eu precisava ousar, que precisava aprender mais magias em meu dia a dia? Sim, eu tinha algumas magias que ela não possuía, mas de que me adiantariam se tais magias eram de cura, se podiam apenas remendar alguns ferimentos básicos. O que eu poderia fazer diante de uma pessoa que jazia caída, com o peito aberto e seu coração arrancado. Sentia-me inútil, um abandonado. Não... Ela não podia ter me abandonado. Uma horda de mortos avançavam ferozes contra feiticeira, arrancavam o coração da mão dela enquanto ela tentava se defender e atingir o outro feiticeiro.
Sim... Agora eu compreendia porque Alice tanto respeitava Thorn...
Ele erguia os mortos como escudo para seu corpo, como armas contra a feiticeira que conhecia as antigas magias, mas que não conhecia o poder da necromancia. Ela mal tinha tempo de evocar Raios ou de escapar das garras dos mortos que arranhavam seu corpo, que a seguravam cada vez mais. Deixando-a cada vez mais indefensável e assombrei... Como poderia não me assombrar quando pude ver aquelas asas crescerem, aquela aura se espalhar. Como não poderia chorar de dor, de medo e de tudo que me assolava, quando finalmente pude ver o arcanjo que eu mais odiava.
Não... Ele não assumia as formas pavorosas de tantos demônios que enfrentei. Ele crescia como uma sombra que engolia e varria toda aquela área que nos encontrávamos... Ele era belo ao ponto de desejarmos que consumisse nossa alma em seu rosto sereno e pele pálida, naqueles cabelos negros que esvoaçavam, mesclando com suas asas negras e nos abraçava congelando a nossa alma, arrancando-a de nossa carne mesclando à sua alma. Por um momento senti paz, pois não vi Alice sendo arrastada para os confins do Inferno. Vi Togarini batalhando furiosamente contra Geburah que se encontrava no corpo da Morgan. Meu ódio crescia, minha alma tremia, éramos apenas marionetes, tais quais Alice dizia que éramos em todos os dias que eu a ouvi murmurar com desgosto em sua vida.
Mesmo estando inerte, talvez tão morto quanto minha parceira, eu ainda podia presenciar o que ela não presenciava. Era um espetáculo sem par, ver todas aquelas almas se juntando, sendo manipuladas pelo Arcanjo da Morte. Os Anjos batalhavam, o prédio ameaçava desabar, os mortos avançavam... O Viking se aproximava da feiticeira de maneira implacável...
— Inquisidor!
Ouvi aquele grito, aquele comando que sempre me acompanhou. Senti as correias se apertarem sobre meu corpo me puxando para a batalha, minha alma voltando para o meu corpo e minha mão erguendo em uma direção.
— Mate-o!
Meus olhos estavam embaçados, minha mão tremia. Meu coração apertava. Ele estava de costas, iria alcançá-la. O Arcanjo da Morte ganharia se eu não fizesse nada. Alice morreu por confiar nele. Poderia estar viva... Se não fosse por ele... Se desde o início tivesse seguido...
— Geburah...
Disparei minha arma, pois a Justiça deveria prevalecer.