Thursday, December 17, 2009

Dos Braços...

A besta poderia ter muitas faces e eu bem conhecia este lado, pois muitos já viram minha face bela e tantos outros a minha verdadeira face, mas nada se compara à besta-fera que encontrei em meus séculos de vida.
Uma humana que, aos poucos, mostra suas presas e garras mais afiadas que as minhas, mudaria a opinião que eu tenho de minha criadora.
Por muito tempo culpei Christine Morgan por me prender a um código de honra que me torna uma serva fiel, pois caso o contrário, a morte não será mais um novo começo, e sim, o fim.
Praguejo um bocado, pois seres como eu, voltam ao seu local de origem e buscam uma nova passagem para o mundo dos mortais. E assim, damos continuidade às nossas caçadas. Mas a bruxa me privou de tudo isso e acabou despertando um lado que mal consigo controlar.
Muitas magias foram lançadas sobre mim para que eu não me tornasse uma criatura incontrolável e sedenta de sangue.
Desejei por muito tempo a morte de minha criadora pelas mãos de outrem, já que eu não poderei matá-la. No entanto, se eu estiver por perto, isso poderá significar a minha extinção.
Mas será que criaturas como eu, realmente deveriam ter uma chance na vida de conviver entre os mortais?
Quando encontrei a inquiridora; eu achei que poderia matá-la facilmente... Achei errado e hoje fico a observá-la, assim como os amigos que ela possui a observam. Minha criadora murmura ao meu ouvido que é chegada a hora, pois a inquiridora parece absorta em seus pensamentos, parece cansada.
Como uma boa caçadora, eu não dava atenção àquela voz que vinha me importunando. Christine era determinada, mas ela não insistiria em uma morte com tanta determinação, se a presa não mostrasse perigo para a sua prole.
Mas agora... Meus dentes rangiam, eu sentia o cheiro de morte e sangue à distância. A caçadora no momento era aquela mulher, de olhos ferinos, banhada em sangue e sentada ao trono de mortos...
Uma predadora que atraía sua presa com a isca perfeita.
Havia muitos inquisidores mortos, muitos feiticeiros. Ela não se contentou apenas com os humanos, mas também com a casta celestial e demoníaca. Não atraía apenas os meus olhos, mas os de tantos outros mais, como se desafiasse a todos.
Uma emboscada com início e fim e eu me perguntava qual era o verdadeiro sentido de tudo aquilo.
Havia certa tensão ao ar e todos se aproximavam cautelosos, enquanto o olhar dela parecia distante.
Por que tantos mortos em um só lugar?

— Mostre sua última carta... Alice

Wednesday, November 04, 2009

Mas Jamais Fugirá...

Meu corpo treme e eu já não sei se é por êxtase, ou por estar sendo consumida com a presença de Togarini que está a tanto tempo manipulando meu corpo. Não que eu seja contra, pois não me sentia liberta desde o recrutamento do FBI...
FBI?...
Não posso culpar Jean ou mesmo Anderson por seguirem Geburah. E se eu gostasse de manter as práticas do Opus Dei, diria que a culpa é minha e do Arcanjo da Justiça que entrou na minha vida.
Estava cega pelo desejo de vingança contra o monstro que matou meus pais, desejava eliminar toda aquela dor que eu sentia, infligindo isso a um culpado qualquer que eu encontrasse.
Fui capaz dos atos mais atrozes e não posso dizer que me arrependo, pois estaria sendo hipócrita, mas também não posso fingir, que alguns poucos casos, às vezes me fazem olhar o passado e ter essa sensação de vazio.
Talvez, não sei, mas talvez, desde meu nascimento, eu optei por escolher uma vida solitária. Motivos? Porque assim, eu não magoaria, não faria as pessoas chorarem, ou sentirem a minha falta. Mas a humanidade é engraçada em um dos desígnios de Deus.
Ajudai uns aos outros e não os deixei cair em tentação.
Então qualquer tipo de fuga que seja, é vista como uma abominação que deve ser extirpada.
E cá estou eu, em meio a tantos corpos dilacerados, com seus corações arrancados, olhos devorados, saboreando os sonhos, desejos e sentimentos que cada uma de minhas vítimas tiveram, enquanto Togarini usava meu corpo para saciar sua fome mais devassa.
E não me arrependo...
Mas às vezes, são os sentimentos delas que estremecem meu corpo, me fazem suspirar mais forte e pensar...
Ela estava pensativa, sentada em seu trono de corpos mutilados, coberta de sangue da cabeça aos pés e a única coisa que destacava eram aqueles olhos ferinos; amarelados tais quais de uma tigresa a espreitar. Estava a analisar o porte dela, a respiração, o olhar. Havia a ferocidade, mas também havia um vazio capaz de sugar qualquer um que a encarasse. Meu corpo estremecia, talvez de êxtase, talvez receio. Mas eu não me arrependia de tê-la apresentado ao Arcanjo da Morte. Alice era uma pessoa que desejava acabar com aquela dor e talvez, se Geburah a tivesse encontrado antes, ela poderia ter morrido mais cedo. Ou talvez, Alice só tenha perdurado esse tempo todo, devido às desavenças dos dois arcanjos desejosos por aquela alma tão sombria. Sim.. Eu conheci Alice, antes mesmo dela firmar pacto com os dois Arcanjos. Fui seu primeiro guardião, talvez por ver certa fragilidade naquele corpo, aquele desejo por morrer e não querer ferir mais ninguém. Escutei seus gritos e implorares capazes de despertar desejos estranhos e dos mais variados possíveis em qualquer criatura. Nas terrenas, compaixão e pena; nas infernais, lascívia e deleite; e nas celestiais; ambição e vingança.
Não me arrependo de ter acolhido aquele corpo frágil, com alma tão forte e capaz de segurar dois arcanjos. Sei que isso será a causa da morte dela e apesar deste coração de pedra que tenho em meu peito, começar a esmorecer, minha interferência resultará na morte de muitos, principalmente dela.
Eu já não sabia mais que olhar era aquele. A primeira vez que a prendi, o aspecto dela se encontrava da mesma forma. Eu vi que não era ela quem estava presente. Havia tanta maldade ao olhar, mas dessa vez... Era diferente.. Havia aquilo, mas também.. Havia um vazio... Uma certeza... Meu corpo estremecia perante os sentimentos que me consumiam. As dúvidas que começavam a brotar em meu peito, de que não haveria mais salvação, de que o Arcanjo da Morte havia vencido e que eu perderia a companhia de Alice de uma vez por todas. As escolhas eram difíceis, mesmo tendo sido os Inquisidores, a própria justiça, que tenham matado muitos de meus ancestrais, tornando-os hereges; Os tempos de hoje exigiam que fizéssemos pactos com seres de outro plano de existência, para que a balança se mantivesse equilibrada. A princípio, não concordei com Geburah, pois o alvo remontava minhas origens. Alice por muito tempo conseguiu mostrar o quanto estávamos sendo manipulados naquela situação em que a Justiça prevalecia dos dois lados e que estaríamos quebrando nossos princípios tomando partido, mas hoje tenho minhas dúvidas, depois de avaliar o saldo de mortes. A Gárgula matou bem menos do que a Alice, desde que esse caso começou. Sei que não posso mais ficar ausente, mas também sei que dependendo da minha decisão, o resultado final significará uma morte. Resta-me descobrir se será a minha morte, a morte de minha alma, ou a morte de meu coração. Temo por qualquer uma das respostas, pois posso vê-las aos olhos de Alice.
Desde minha conversa com Lúcifer, venho andado de modo cauteloso. Não por temê-lo, mas por pensar em suas últimas palavras. Não aquelas de que eu já havia perdido minha batalha para o Arcanjo da Morte, mas no que ele disse sobre estratégias militares.
Maldito seja o portador do conhecimento, pois de forma esmagadora ele sabia como acabar com qualquer convicção. Ao trazer à tona as lembranças de meus irmãos que me julgaram aos seus olhares, quando minha declaração de guerra causou a morte de Ramiel. Certas batalhas são vencidas com espadas, lanças e corpos mutilados, mas outras batalhas... Simples palavras já bastavam.
Onde estás meu Pai? Por que me abandonaste desta forma?

O corpo dela estremecia. Era um corpo humano apesar dos pesares. Deixei que ela descansasse por um tempo e fiquei a observar a forma que Jean e Thorn observavam Alice. Havia dúvidas, resignações. A morte da avatar estava clara aos olhos deles e minha presença apenas aumentava esta certeza. O que eles não sabiam é que esse desejo era dela. Desde o princípio sempre fora o desejo da agente, encontrar a morte. Se não comigo, teria sido com um dos outros seis e talvez, no caso deles, a vida dela não teria sido poupada e o desejo dela teria sido atendido. Pode ser um lado sádico meu, mantê-la viva e tê-la tornado minha avatar devido ao potencial dela. A busca não apenas da própria morte e o desejo de sangue em sua alma vingativa, sempre esteve presente, o que me tornou mais canalha que Geburah, ao deixar Alice aceitar o acordo com ele. Eu poderia ter impedido. Mas.. No fim das contas... Afeiçoei-me a esta mortal... Não por amá-la, como Lúcifer um dia amou uma mortal, mas pelo simples fato de que posso ver-me refletido aos olhos de Alice.

Wednesday, October 14, 2009

Você pode se esconder...

A parede ruía. Rompia perante a minha fúria. O Arcanjo da Morte havia passado dos limites. Eu ainda podia escutar os gritos de Ramiel em minha mente. Desde quando o criador havia dado tamanho poder para os Arcanjos da morte? Não seria ele quem deveria ter o poder de nos exterminar e nos julgar? Eu ainda posso me lembrar dos olhares de meus irmãos. Dos Seis Arcanjos que restaram da antiga hierarquia.
Miguel, Rafael, Gabriel, Uriel, Sariel e Raguel condenavam-me com seus olhares. Ainda estavam apegados aos tempos em que o Criador estava mais presente. Esqueciam-se que na ausência dele não devíamos jamais fraquejar, pois a guerra se mantinha, mas a morte do Trovão de Deus... Do conhecido Anjo da Esperança...
Não! Togarini estava indo longe demais em suas declaração de guerra contra mim, apenas por causa de uma ínfima humana.
— Sabes que ela não é ínfima Geburah...
Aquela voz... O que ele fazia aqui?
— Não me faça essa cara de espanto, Geburah. A morte de Ramiel pôde ser ouvida em todos os recantos. Não pude deixar de sorrir ao ver meu arrogante irmão, tido como a esperança, ou como aquele que guiará as almas dos mortais à presença do Pai, sendo estraçalhado por uma das mais novas criações do Senhor...
— Eles são aberrações... Sete Arcanjos criados com o único intuito das faces da morte?
Ele riu de forma baixa, rodeava-me como uma serpente prestes a esmagar meu corpo e mesmo odiando-o por tudo que ele fora capaz de fazer, ainda me sentia impotente perante a presença dele. Como Miguel conseguira?
— Não pense demais Geburah. São pensamentos assim que fazem anjos caírem. É uma pena que nosso pai sentia-se confuso em relação a Ramiel. Às vezes tornava-o esperança, outra vezes o fazia ser confundido com Azazel... Outras vezes... Tornava-o um caído por ter tido uma esposa terrena e ter me seguido em minha teimosia e outras vezes não decidia se ele era Ramiel ou Remiel...
Meu corpo estremecia. Havia um ódio imenso se apoderando de mim com aquelas palavras que ele dizia, mas o calor amornado do abraço que me envolvia, aquele murmurar sereno e cálido...
— Teu maior erro, foi desejar algo que não te pertencia, Geburah... Os Arcanjos da Morte possuem algo que vocês jamais terão... O lado obscuro do Pai...
— Basta! – Murmurei fraco perante as verdades de Lúcifer. – Como consegues manter-te calmo se Togarini também está matando dos teus?
— Meus? – Ele riu baixo, tomando meu queixo em suas mãos, olhando-me com a mesma frieza e sarcasmo que Togarini possuía quando deixava claro que eu jamais venceria nas escolhas da humana.
— Cada um pertence a si mesmo e eu apenas irei ver de camarote a tua queda, Geburah. Togarini jamais teria chegado a tanto, se tu não tivesses resolvido usar Alice como exemplo.
— Ele não me vencerá! – Afastei aquela serpente, aquele traidor que ainda era o mais belo dos belos em sua aparência. Que fora expulso da companhia do Pai. Banido por sua arrogância e pretensão.
— Ele já te venceu, Geburah. Acaso não percebeste... – ele sorria afastando-se de mim, ainda me deixando impotente perante a presença dele que se dissipava aos poucos – E eu realmente ainda me divirto com a mentira sustentada por Mikhael...
O que ele queria dizer com aquilo?
— Quem em sã consciência e visão estratégica, deixaria o inimigo de Deus vir para o lar dos mortais com um terço do exército celestial?

Tuesday, September 22, 2009

Você pode correr...

O medo naqueles olhares era forte o suficiente para afastar as pessoas e torná-las presas fáceis. Presas prontas para o abate, mas os adormecidos não eram a carne que eu queria mastigar. Meu corpo se movia, meus instintos me guiavam. Cada fresta, cada buraco, cada templo arrombado, e eu sorria. Deleitava-me com os gritos de que não sabiam; dos pedidos de perdão; do implorar por uma morte rápida a cada vez que eu arrancava um órgão e os trazia de volta à “vida”. Ah! Deliciosos corações devorados, que guardavam as emoções e não a alma, que continha o poder inimaginável em seu gosto férreo, de um músculo quase de aço. Divertia-me com o quebrar de ossos, o rasgar da pele, as palavras balbuciadas, confirmadas apenas ao que o manjar final era sorvido. Huuum! Como era delicioso o estremecer do meu corpo, ao sentir aquele líquido ocular viscoso, adentrando minha boca, saciando minha fome, trazendo à minha mente toda a vivência daquela alma. Demônios que encontraram a gárgula, cada morte que trouxeram aos Morgan, assim como anjos da guarda que protegiam os McArthur. Os gritos chegavam aos céus e ao inferno e quantos mais mandassem para mim, mais diversão eu teria.
— O Criador jamais os perdoará... – Balbuciava um anjinho, depois de ter sido depenado, ter suas asas rasgadas, suas tripas arrancadas e seu coração mastigado.
— Ele está cansado disso tudo Ramiel! Cansado de ver suas próprias crias quebrando seus mandamentos. Cansado de suas primeiras criações, por isso fomos criados... Sete anjos para saciá-lo. Sete anjos para deleitá-lo em todo seu prazer, sadismo, fome e sede. Em toda sua deturpação, crueldade e insanidade. Alguns de vocês tomaram a rédea. Fizeram bem o seu serviço, mas a falta da graça do pai, da voz em suas mentes, tornou-os insensatos. E adivinha quem ele usa para relembrá-los de que as coisas não são tão fáceis e tão belas?
— Pensei que o olho por olho, fosse departamento de Geburah – murmurou cada vez mais fraco Ramiel.
Ri baixo, sombrio, arrancando-lhe o primeiro olho. Passando a ponta da língua naquele orbe tão cheio de vida, de lembranças, de sabedoria.
— Geburah, é apenas um maldito aprendiz que deseja superar o mestre... De onde você acha que ele retirou suas técnicas?

Friday, September 04, 2009

Assim será...

Não compreendia porque ela me perguntava aquilo, porque me olhava daquela forma consternada e receosa como há tempos eu não a via desta forma.
- Milady?
A voz de Ângela arrancava-me daquela visão que por breves momentos eu tive. Uma visão que me estremecera diante da figura sombria, que crescia aos gritos de todos os que morreram nas mãos de meus inimigos. Havia sangue e um terror crescente, mostrando-me a queda dos Morgan em tempo presente. Jamais havia me intimidado de igual forma, nem mesmo os inquisidores que um dia exterminaram quase por completo minha linhagem na invasão do Castelo, quando fomos declarados inimigos de Deus. Hereges que deviam ser ceifados por se aliarem aos demônios que protegiam o nosso reino.
- Mate-a, antes que seja tarde demais. – Murmurei desvencilhando olhos e corpo ao que ela se aproximara em sua dedicação completa.
Togarini havia movido sua peça, a mais forte dentre elas. Conhecia-o bem e sabia que era chegado o tempo de nosso verdadeiro embate. Alice havia usado sua necromancia, isso era claro de fato. Eu desejava aquela alma que se rebelara contra meu domínio, usá-la-ia como exemplo para outro corrompido. Usava minhas palavras aos lábios da feiticeira, tornando mais forte o comando perante aquela com um código de honra para cumprir. Mas jamais saberia o que Christine viu em sua mente, em seus olhos que manipulam as linhas de seu destino, então me restava manipular a gárgula aos meus desígnios, antes da Alice voltar a ser a besta desenfreada desejosa de sangue e almas.
Tudo que havia sido levantado sobre o caso, passava diante de meus olhos, algo me dizia que Alice estava escondendo algo. A velha sensação de proteção, àquela que despertara em mim tal sentimento, berrava, acelerava meu coração e minhas mãos espalhavam os papéis ao chão. Por algum tempo tive que renegar Geburah, por maior que fosse meu senso de justiça acima de tudo. Peças eram movidas em um tabuleiro que eu não conseguia enxergar e o necromante viking se mantinha silencioso, observando pela janela uma tempestade que estava para chegar.
- Sinto-me inútil, não podendo ajudar! – Berrei ao que as folhas se espalhavam pelo chão. Um castelo de cartas que se desfazia diante de minha frustração.
- Essa batalha não é nossa, Jean. Jamais nos pertenceu. – Olhei para o cavaleiro, aquele príncipe encantado. Cachorrinho perdido que pressentia a perda de sua dona e mesmo parecendo tão frio, meu coração se apertava, pois Togarini deixava claro aos meus olhos, mesmo estando tão distante de minha presença, que Alice voltara aos primórdios antes da influência de Geburah. Jean tentava ser imparcial, mas por quanto tempo mais ele agüentaria ficar ali sem interferir?
Ri, sentindo mais uma vez a “liberdade”... Sentindo aquelas lembranças que cresciam em minha mente, mostrando-me a caça que um dia fora feita. Ri com o êxtase sentido por Togarini, ao matarmos o demônio que clamava para não ser extinto. Andava cambaleante em meus ferimentos, vendo as pessoas abrirem o caminho. O medo era o alimento perfeito, aquilo que aprendi a amar, depois que selei meu pacto com Togarini. Depois que Thorn salvou-me de minha auto-cosimeração.

Thursday, September 03, 2009

Se é assim que desejas...

Não muito distante ela estava de mim, eu poderia ter ficado ao chão, ter morrido naquele momento de paz que Togarini me manteve enquanto sofria de alguma forma em meu desejo de morrer. Minha mente embaralhava com sentimentos meus e com os do arcanjo da morte. Em minha alma pétrea e desacreditada, eu poderia dizer que ele apenas não desejava minha morte, pois me perderia de uma vez por todas para Geburah. Mas o anjo negro, regente dos necromantes, deixava uma pequena fresta se mostrar, em meio a sua alma de sangue e sadismo constante.
Geburah envolvia Ângela em seus braços, sussurrando-lhe ao ouvido palavras que eu bem conhecia. Mesmo distante aquele crápula movia suas peças do modo mais pérfido. Mesmo com os corpos ausente de minhas vistas, ela ainda estava por perto. Arrastava-me, isso era fato presente aos olhos daqueles que não se faziam presentes, deixava uma trilha de sangue, dos ferimentos abertos, mesmo não cuspindo sangue.
Corpos mortos, sangues... Poças de sangue grandes o suficiente. Corpos mortos recentemente e eu sorria.
Sorria enquanto deixava meu corpo cair de joelhos, tendo o corpo de um demônio entre eles.
Eu não tinha a trilha da vida, mas corpos são corpos e almas são almas. Símbolos traçados com o mais rico ingrediente.
- Ainda não é tua hora! – Murmurei sadicamente.
Deixava meus lábios, murmurarem à criatura abatida o amargo regresso. Seu corpo estremecia, queimava em suas entranhas, enquanto minhas mãos mostravam aquele fogo fátuo. Acorrentando-o, prendendo minha deliciosa presa que estava se recuperando em seu reino.
- Mal...ditos... se...jam... – rosnou o demônio acorrentado, vendo sua existência preste a ser dissipada.
- Há tempos o Arcanjo da Justiça tem dado baixas em seus exércitos.
- Isso nunca nos impediu... Inquisidora... Sabes bem disso...
Ri sarcasticamente, deixando que o demônio visse aquilo que ele não queria.
- Tog...
Meus dedos cravavam à pele do demônio aprisionado, puxando-o contra o meu corpo, enquanto meus olhos mudavam de cor constantemente. O fogo fátuo alterava para o verde, depois enegrecia, para o pior dos pesadelos que um demônio poderia vir a ter.
- Ele rouba em seus golpes baixos, almas que não lhe pertencem. Mantendo-se na graça do velho bastardo. Por tão menos teu regente fora desgraçado. Por tão menos teu regente perdera esposa e quase perdera a filha.
Queimava-o, consumindo-o como um bom vinho. Sentia o deleite da alma torturada por fogo e do sangue que fervia em suas entranhas.
- O QUE QUEREM DE MIM? – O rugido estremecia os adormecidos a quilômetros, lançando uma sombra de terror em seus corações.
A insegurança do lar aumentava em suas vidas, enquanto os cabelos negros repousavam ao corpo derretido.
- Suas lembranças... Sua alma...Sorri, erguendo-me em delicioso triunfo, deixando a trilha de sangue aumentar. Meus dedos deslizavam pela parede, manchando-a com os restos de um ritual necromante...
Moooorgaaaan...
Christine Morgan estremeceu por um breve momento, recuando seus passos para trás. Havia perplexidade em seu rosto. Há séculos não a via consternada, como vi naquele momento.
Ângela estava recoberta de sangue, minha gárgula parecia em paz mesmo com o coração arrancado. Quem era aquela sombria criatura que se mantinha sobre ela que me olhava de soslaio, mostrando-me igual fim a que minha gárgula teria?
- Quem é você?

Tuesday, August 18, 2009

Liberta-te

- Confias na humana?
Aquela voz atormentava-me desde que encontrei aquela mulher de olhos ferinos pela primeira vez. Às vezes ele surgia na voz de minha criadora, incitando-me em meu desejo de sangue, dizendo-me que a agente não pararia, até matar todos os Morgan e extinguir a minha vida. Mas em todas as nossas batalhas, meu código de honra falava mais alto.
- Ela brinca contigo!
Não! Ninguém brincaria daquela forma, não uma predadora como ela, que me dá calafrios só com aquele olhar. Nem mesmo seres que não pertencem a este mundo humano, me fizeram ficar atormentada desta forma.
- Ela te matará quando menos esperardes.
Não seria tão fácil. Mesmo me ferindo, ela não possui regeneração, ela é uma mera mortal que deve estar morta há essa hora. Meus ferimentos naquele corpo fraco sempre a fazem desaparecer por algum tempo.
- Quem garante a ti, que ela é uma simples mortal?
Por que aquela voz me atormentava? Por que não me deixava em paz?
- Ela já matou um recém nascido. Foi capaz de matar a própria família quando ela poderia ter impedido. Não conheces aquela que é movida pela morte, que possui uma alma regada de sangue. Ela te matará primeiramente, para depois matar todos aqueles que amas. Manipula-te para que mates tua criadora.
- Não! Ela jamais conseguirá isso! Eu... Não posso matar Christine Morgan... Por mais... Que eu desejasse... Por mais.... Que eu deseje...
Silêncio... Por um tempo aquela voz se silenciava, depois de me atormentar, de instigar-me e criar dúvidas em minha mente. Todas as mortes que já vi, de meus protegidos, mesmo vindo pelas mãos dos McArthur, pareciam ganhar uma nova sombra; um olhar de desafio, daqueles olhos que não temiam a morte.
Meu corpo inteiro tremia, não havia forma alguma de esconder de Christine a morte não natural de um Morgan. Ela saberia... Seu grimório amaldiçoado... Eu devia tê-lo destruído séculos atrás, quando o filho mais velho de Christine morreu... Não... Sem o grimório, minha missão de defendê-los tornar-se-ia muito mais difícil e eu não teria salvado tantos como salvei.
- Posso ajudar-te... Gárgula... Livrar-te de tua condição servil com os Morgan...
Eu ainda tinha James “Morgan” Norrington em meus braços. Aquele rapaz que disse meu nome em seu último suspiro. Minha alma ainda se encontrava dilacerada com a dor da perda de meu protegido e aquele anjo, com asas brancas e semblante tão sério me envolvia aos poucos com suas asas.
- Mate a agente, antes que ela te mate...
Matar... Matar alguém que não fosse McArthur... Que não estivesse ameaçando a vida de um Morgan...
- Lembra-te, quando matavas para aplacar tua fúria? Teu desejo por sangue e corpos dilacerados... De quando ainda tinhas o prazer pleno da verdadeira alma caçadora que bate em teu peito?
Corpos dilacerados. Gritos. Medo aos olhos... Sangue... Carne humana fresca... Deliciosa...
- Ângela...
Meu transe era partido com a voz de Christine. Ali, perante a imponência da feiticeira, eu me encontrava prostrada, com James aos meus braços. Ali ela via meu sofrimento e se aproximava, percebendo meus ferimentos que ainda se fechavam.
- Quantos mais, deixarás morrer em teus braços?
- Quanto mais, manterás tuas correias?