Wednesday, November 05, 2008

Passeios Noturnos II

Ela não estava andando desacompanhada. Não era difícil saber onde ela se encontrava, mas a fortaleza que ela vivia era de difícil acesso, até mesmo para minha forma humana.
Não eram simples cruzados e inquisidores, pois estes em minha época, não apelavam para os conhecimentos que eram domínios daqueles a quem caçaram tão ferozmente.
Mas depender apenas do Criador deles, parecia não estar surtindo efeitos e foi quando pude presenciar no decorrer de minha longa vida, que alguns deles começaram a se corromper. A usarem os conhecimentos que antes eram visto como profanos por eles. E aqueles dois que agora andavam lado a lado sabiam o que faziam.
- Não mais merece ser lembrados como eram. Merecem ser associados aos atos horrendos que cometeram contra seus irmãos e principalmente nosso Pai. Amaldiçoados sejam hereges, pois de nós, merecem apenas desprezo.
Tive que me controlar com aquele sussurro que ela soltou. Era um recado direto para mim. Ela sabia que eu estava por perto e estava tentando alertar o seu companheiro. Há quanto tempo ela percebeu o meu planar ou o meu avançar pelas paredes?
Há quanto tempo ela sabia que eu estava os vigiando?
- O que sussurraste?
Só poderia estar distraído. Talvez tão alerta quanto ela, não tenha ouvido aquele sussurro tão claro e lá estava ela a falar sobre as possibilidades de como surgimos. Ele sorria e ela parecia ter muito respeito por ele. Seria o mestre dela? Não... Se assim o fosse eles não estariam falando a respeito disso. Sim... Eles sabiam que eu estava ali e diziam-me que também conheciam magia, mas faziam tudo parecer uma conversa tão banal.
Conversas como essas há tempos atrás eram sussurradas, apreensivas e isso não acontecia naquele momento. Ela mostrava muito bem o quanto já conhecia a forma que eu fui criada, o quanto estava descontraída e perigosamente alerta.
– Nossa predadora está esperando o momento certo... Por enquanto...
– Ela está apenas avaliando o terreno e sua presa.
Uno... Eles agiam como se fosse um. Alertas, protegendo um ao outro. Completando as frases e isso apenas me faz recuar.
Não. Ainda não era o momento certo de atacar. Ainda posso me lembrar bem daquela arma de ferro frio que me feriu gravemente.
Talvez, eu devesse abordar aquela inquiridora de outra forma.
Afinal. Minha sobrevivência não foi calcada apenas em minha bestialidade. Mas agora, por hora, estava na hora de fazer outras vítimas. Antes que eu perca o controle sobre a minha razão.

Sunday, October 19, 2008

Passeios Noturnos

Thorn andava ao meu lado nos últimos dias. Estava preocupado por conta da gárgula. Há séculos ninguém relatava a aparição desses espécimes. Mas entre todos os relatos, havia uma enorme dúvida de qual era a origem desses seres.
Algumas pessoas os viam como estátuas vivas, mas que só podiam agir durante a noite, pois por serem criaturas noturnas, o sol as proibia de vagar pela face da terra.
Outros os viam como demônios, que atormentavam os mortais durante o sono, desejando ganharem vida, fazendo os escultores esculpir um meio de eles poderem andar entre nós.
Havia também as histórias de escultores que precisavam ter grande conhecimento em magia e ocultismo, mas que nesses casos, as gárgulas, como forma de gratidão, protegiam seus criadores.
Mas há dentre todos os relatos, o meu preferido...
Anjos que em sua rebelião junto ao Primeiro, foram usados como exemplo para fazer com que demais anjos não caíssem na tentação. Suas asas angelicais foram arrancadas, junto com a luz que possuíam e sua beleza. Em meio à tamanha dor e castigo, suas asas ganharam aspectos de morcego. Chifres cresceram em suas frontes. Garras tomaram lugar das pontas dos dedos e tantas outras mais transformações ocorreram...
- Não mais merecem ser lembrados como eram. Merecem ser associados aos atos horrendos que cometeram contra seus irmãos e principalmente nosso Pai. Amaldiçoados sejam hereges, pois de nós, merecem apenas desprezo.
- O que sussurraste? – Perguntou-me Thorn após escutar minhas palavras que vieram em pensamentos altos.
- Estava me recordando de todas as possibilidades do surgimento de uma gárgula. – murmurei.
As ruas pareciam desertas naquela noite e Thorn sorria, andando ao meu lado em seu jeito nórdico de ser. Nada de abraços, carinhos afetivos, nem mesmo mão dadas e eu apenas o olhava de soslaio de vez em quando, justamente por ele respeitar meu jeito isolado de ser.
- Muitas na verdade, apesar de apenas quatro serem as mais conhecidas. Você mesma pode criar uma gárgula se quiser Alice, eu já ensinei a ti como fazer isso.
- Sim, você me ensinou isso, mas também me ensinou que toda magia cobra um preço.
Thorn começou a rir e então me solta o comentário que ele sempre soltava para ver se arrancava um sorriso de mim:
- Suas roupas que o digam. Quantas vezes? Cinco? Seis? Ainda posso me lembrar de teu comentário, quando Vinnie viu pela primeira vez teu sobretudo entrando em combustão espontânea. Dele não acreditando em sua naturalidade em apagar o fogo como se nada estivesse acontecendo e ele correndo para checar o carro...
- Para ver se não estava vazando gasolina... Sim... Ele não viu apenas uma vez, mas duas vezes e começou a achar que alguém estava tentando me matar, usando produtos químicos altamente inflamáveis – suspiro, complementando o discurso do necromante que tinha mudado de assunto, ou que tinha apenas resolvido se divertir com momentos em que não consegui manipular a magia tão bem como deveria.
- Qual dos casos, achas que pode ser a gárgula que caçamos? – Pergunta-me, observando-me atento e nada mais pude responder a ele além das únicas formas, onde há uma pessoa presente.
- Ela pertence a uma escultora, a qual pratica magia.
- Tens certeza? – Perguntou-me Thorn.
- Pude presenciar um ato de submissão muito grande da gárgula. Ela mostrou total obediência, apesar de sua revolta em ser interrompida. Chamou-a de Milady e não se preocupe. Eu pesquisei bem... Nossa Gárgula tem desavenças com Inquisidores, principalmente se for da linhagem McArthur.
Thorn me olhou longamente e suspirou.
- Então já sabes quem é nosso alvo e estamos apenas passeando? – Thorn me olhou de forma séria e soltou em tom baixo – Isso é um encontro srta. Alice?
Ri. Não tive como não rir naquele momento. Thorn só podia estar brincando se achava que aquilo era um encontro. Vinnie tinha encontrado tudo que era possível sobre as ultimas aparições de gárgulas. Ele em sua genialidade conseguiu descobrir que haviam duas famílias envolvidas. Os McArthur e os Morrigan. Eu precisava ver a reação da gárgula com a primeira família, pois tal linhagem era conhecida por ter feito parte dos Inquisidores justamente na época em que os conflitos foram mais fortes.
- É estranho ver você rindo, poderia te comparar a Wandinha Addams, que assustava as pessoas com um simples sorrir. – Falava-me, enquanto mantinha seus passos, observando as ruas desertas, já se mostrando um pouco atento a essa estranheza toda.
- Estás apenas tomando conta de mim, enquanto me recupero por completo e sim... Nós não estamos sozinhos... – Murmuro olhando de soslaio os arredores – Nossa predadora está esperando o momento certo... Por enquanto...
Paro de falar e de andar. Thorn para também e olha ao redor.
- Ela está apenas avaliando o terreno e sua presa.

Tuesday, September 16, 2008

Criadores e Criações

Talvez, se eu tivesse asas como a dos anjos, as penas estremeceriam, acusando o êxtase em momentos como aqueles.
O sangue descia em pequenos filetes pelo meu corpo, buscando o delinear dos traços marcados e moldados pela mão de minha criadora. Meus olhos perdidos no deleite que me consumia, brilhavam estranhos para qualquer um que me visse.
Aquela sensação percorria minhas entranhas.
Das pontas de meus pés, subia como gostosos arranhares. Não tão lentos, muito menos rápidos demais.
Atingiam minha virilha, penetrando-me mais fundo, abrindo caminho como animais sedentos de sangue, rasgando-me por dentro em garras afiadas trespassando meu coração.
Um grito longo, seguindo o estremecer de meu corpo, vinha carregado de lascívia, prazer e entrega, enquanto meu corpo caía sob o peso daquele momento.
minhas mãos tocavam ao, chão, minha cabeça pendia para trás e minha respiração arfava.
Eu não enxergava mais nada. Cega momentaneamente no formigamento de um corpo inteiro.
- Lembre-se de suas obrigações, Gárgula!
Êxtase, cortado em lâmina de ferro frio com a voz que me trazia de volta.
Presas que rangem, respiração pesada e o urro que antes era de prazer, torna-se de raiva.

Pedras rasgadas por minhas garras e meus olhos ganham um tom canhestro.
- Você ainda não se livrou da Inquisidora.
O cheiro pútrido no ar, se misturava ao líqüido viscoso. Antes carícias que lambiam-me prazenteiro, agora grilhões que parecem pesar.
Gritos implorando perdão que foram silenciados com gritos de dor extrema.
Dor para eles, prazer para mim. Para ela. Para nós...
- Ela não caça tua prole, minha senhora - respondi em meio a um rosnar.
- CAÇARÁ! GÁRGULA INSOLENTE! ESQUECESTE QUEM DEU VIDA A TI? QUEM TE DEU A ETERNIDADE?
Ali só haviam restos mortais. de crianças, jovens e adultos. De humanos que poderiam parecer inocentes aos olhos de muitos. Inocentes para os demais...
- Esqueceste de seu código para conosco, Angela?
Por um momento. Um breve momento, minha criadora pode ver minhas garras se fecharem em seu pescoço. Um suave arranhar. Sutil o suficiente para que logo eu caísse prostada ao chão. Tremendo e implorando por perdão.
- Perdoe-me minha senhora. Perdoe-me por ter ficado cega por um momento e ter esquecido que não é a ti quem devo ferir, estripar e eliminar da face da terra. Eu encontrarei a Inquisidora. Ela não mais será ameaça para ti ou para tua estirpe.
Um suave repousar da mãos em meus pétreos cabelos, podiam ser sentidos como se estes fossem os mais sedosos.
- Em milênios que me serves, esta é a primeira vez que ousaste tanto, Angela. Desta vez a perdoarei. Apenas por ter me servido bem por tanto tempo.
Eu não podia matá-la, não podia ferí-la mais do que feri nesse momento. Mas isso é algo que EU não posso fazer. E eu não estaria quebrando meu código se ao defendê-la ferozmente nossos inimigos a matassem.

Friday, August 15, 2008

O Sofrimento de um Celta...

Uma semana.
Quem sabe, até mais?
Apenas posso dizer que desde que dei a notícia e deixei tudo por conta do necromante, venho castigando as minhas mãos.
Não havia um saco de areia, muito menos um bandido, demônio ou qualquer coisa que fosse suficiente para tirar aquele desgosto que eu sentia.
Minhas mãos estavam feridas, a respiração descompassada e minhas lágrimas escapavam quando eu me encontrava só.
No escuro eu observava aquela cama de campanha que Alice costumava repousar.
Era a primeira vez que eu não zelava pelo sono dela e isso estava me corroendo.
Tantas coisas estavam me corroendo naquele caso da gárgula...
- “Ela precisa voltar por si mesma, Jean. Sem interferências minhas”...
Fiquei sem reação quando escutei Thorn falando aquilo para mim. Eu não sei se ficava com mais raiva do Necromante, de Togarini, de Geburah, ou de mim mesmo. Sempre zelei por Alice e pelo sono dela. Já me feri, quase morri e tantas coisas mais. Mas, não conseguia esquecer o momento em que o telefone tocou em nossa seção, informando-nos que uma agente estava na mesa de operação do Hospital de Nova Orleans. Não consigo me perdoar por ter telefonado para Thorn, dando a notícia e esperado que ele usasse a necromancia mais uma vez.
Não consigo esquecer de todos os dias em que observei pela porta entreaberta, aquele Viking segurando a mão de Alice, chamando-a de volta, quase que numa súplica para que ela não nos abandonasse. Das palavras entaladas na garganta dele em que ele teimava dizer que não a amava e que eram apenas amigos.
Não consigo...
- Tenho pena de quem você está espancando com imensa fúria.
O saco de pancada era retirado de meu alcance e me lembrei que precisava respirar, mas isso não evitou que eu esmurrasse a parede por ter sido interrompido.
- Jean. Sei de seus sentimentos, mas você não está ajudando em nada. O Garoto conseguiu as informações. Alice buscou a gárgula e quase morreu. Thorn está naquele hospital cuidando dela e garantindo que nenhuma besta ou anjo desvairado escape. Muitas pessoas desapareceram no festival de Lughnasadh e você precisa decidir se ainda seguirá Geburah ou se enfrentará a fúria dele por conta de sua rebeldia.
Meu corpo estava tenso, minha mão estava sangrando e doendo, eu estava levando bronca de alguém que consegue manter a voz inalterada e baixa.
- “Você me lembra o Primeiro com todo este orgulho e rebeldia”.
Por um breve momento, realmente breve, a voz de Geburah pela primeira vez me trouxe de volta à razão. Não fora Anderson em sua bronca, mas Geburah em seu modo frio que me fez lembrar o quanto minhas ações estavam prejudicando os adormecidos e aqueles que jurei zelar.

Friday, August 08, 2008

Às vezes, vale a pena voltar...

... - Seu desejo é uma ordem, Milady...
... - Ainda nos encontraremos Inquisidora...
... - Ainda não é sua hora, minha avatar...
Os momentos finais... Aquelas palavras se repetiam em minha mente como em pesadelos que não conseguia despertar. Tudo me lembrava pequenos pedaços de um filme que se prolongara mais do que eu gostaria.
Um rosto pétreo...
Um rosto desconhecido...
Uma voz reconfortante...
... - Ainda não é sua hora, minha avatar...
... - Ainda não é sua hora...
... - Ainda não é...
... - Sua hora...
... - Volte...
... - Eu lhe peço...
... - Volte...
... - Eu...
Meus olhos se abriam devagar... Trêmulos... Quase sem vontade de abrir...
Meu rosto virava devagar e aos poucos meu corpo foi percebendo que alguém segurava a minha mão.
Meu corpo estava cansado e uma prova disso é que eu segurava a mão da Alice.
Estava quase desmaiando de cansaço após tanto tempo de vigília.
Jean pela primeira vez recusou a entrar naquele quarto. Algo estava o incomodando naqueles dias.
Eu sabia que ele sofria, mas não podia abandoná-la. Jamais dei tanta importância à vida de uma pessoa além da minha e, no entanto, lá estava eu, ali, implorando para que ela retornasse à vida.
Por sua própria força de vontade e não por minha interferência de necromante.
Era madrugada de Lughnasadh, na verdade, suas primeiras horas em um festival que a princípio visava apenas festas boas, com alegrias e esperanças renovadas. As pessoas buscavam a proteção da Deusa e do Deus, louvando-os em contentamento por uma colheita farta, mas entre eles, havia aqueles que aproveitavam esse momento para fazer outro tipo de colheita.
Almas, sacrifícios, tantas coisas mais e Alice compreendia esse tipo de colheita...
Por todos os aspectos da morte... Era madrugada de Lughnasadh, suas primeiras horas, quando recebi aquele telefonema.
- “Alice está na mesa de operação”...
Thorn estava cansado. Isso era visível ao notá-lo ali, repousando, sentado em uma poltrona segurando a minha mão. Chamando-me de volta a vida sem usar seu conhecimento em necromancia. Algo incomodava minha garganta, mal tinha forças para falar e o único gesto que consegui foi mover meus dedos levemente.
- Alice? – Ergui meu olhar. Nunca um calafrio foi tão bem vindo quanto aquele. Muitos poderiam achar que havia um amor entre nós dois, mas a maior parte do que incomodava Jean, era a minha cumplicidade e meu entendimento com ela. Não precisávamos falar muitas coisas. Eu a compreendia e ela também me compreendia e desde que me tornei o tutor, guardião e amigo confidente, nossos laços se estreitaram muito mais. Sabíamos que isso podia se tornar um elo fraco entre nós, mas também sabíamos que jamais deveríamos fraquejar. Aprendemos um com o outro, que o uso de nosso elo fraco, deve ser aquilo que nos fortalecerá e que se tornará nosso principal incentivador de grandes sacrifícios em nome do Arcanjo da Morte.
Uma semana... Havia passado uma semana desde aquela madrugada de Lughnasadh.
Às vezes... Raras vezes... Recordo-me porque vale a pena voltar.

Thursday, July 31, 2008

O Dia Anterior

O tempo corria a favor do festival da colheita e queixas se assomavam no Bureau por conta da minha falta de sutileza.
Processos pareciam crescer às minhas costas, com acusações formais e informais do uso de violência gratuita, abuso de autoridade, homicídio triplamente qualificado e tantas outras mais acusações possíveis.
O FBI sabia que eu estava fazendo meu serviço, usufruía de sua influência burocrática para contornar todas estas questões, enquanto Togarini se rejubilava com tanto sangue derramado.
Braços quebrados,
Cabeças arrebentadas,
Corações arrancados e todos diziam a mesma coisa...
"Agora é o período da Primeira Colheita,
Quando a fartura da natureza se dá para nós,
Para que possamos sobreviver."

Minha fúria aumentava e o findar de tudo isso era o momento que eu arrancava a alma dos condenados com as minhas próprias mãos.
Geburah gostava, Togarini se satisfazia e eu mantinha minhas mãos sujas de sangue.
- Bruxos...
O calafrio veio tarde demais.
O gosto de sangue enchia minha boca e eu podia escutar aquele rosnar, erguendo meu corpo aos poucos.
- Inquisidora...
Minha visão estava borrada, mas eu podia ver finalmente aquele semblante pétreo, com seus caninos tão afiados.
- Finalmente...
Murmurei abrindo um sorriso aos meus lábios e a besta percebeu tarde demais o que a atingiu.
O ferimento era aberto em meu corpo. Dolorido demais, quente demais. Aquela Inquisidora mostrava-se uma rival mais forte que os McArthur. Não consegui conter o urro, ela enfiava aquela arma dentro de mim, torcendo-o, quase o quebrando dentro de mim. Joguei-a contra a parede, abrindo distância de nossos corpos. Meu sangue negro esvaía pelo ferimento. Ela não tinha o cheiro de meus verdadeiros inimigos, ela não caçava os meus protegidos. Era a mim que ela estava caçando.
Mesmo ferida, ela ainda tinha forças para me arremessar. Demorei em recuperar o fôlego. Meu corpo inteiro doía. Talvez uma costela fraturada. Talvez duas. Mas ela estava ferida e eu sabia que aquele ferimento não ira se curar tão rápido quanto os ferimentos às balas.
- McArthur... – Falei de forma fraca, recostando-me à parede. Tentando me sentar...
Só o escutar daquele nome me fazia rosnar... Aquele nome maldito... Amaldiçoados fossem...
- Podemos nos matar nesse exato momento... - falo de modo fraco. Algo estava errado. A minha respiração estava queimando.
- Deixe-a...
Meu corpo inteiro reage com aquela ordem... Vir-me-ei e cravei minhas garras nas paredes, escalando aquele prédio. Deixando para trás aquela inquisidora que ainda poderia significar o aprisionamento de minha alma de uma vez por todas.
- Seu desejo é uma ordem, Milady.
Milady? Tratamento respeitoso, arcaico e minha visão estava escurecendo... mas não antes de ver de relance uma pessoa envolta em um manto azul...
Meu punhal brilhava, meus passos eram leves. Seria um Inquisidor a menos na face da terra. Um Inquisidor a menos. Minha mão se erguia firme, decidida. Foi então que eu percebi aqueles pares de asas negras surgindo, crescendo, como se brotassem das costas. Pude ver um corpo se erguendo de dentro dela.
- Ainda nos encontraremos Inquisidora... – murmurei abrindo um portal, atravessando-o antes que aquilo se libertasse.

- Ainda não é sua hora, minha avatar...

Saturday, July 26, 2008

O Aproximar do Lughnasadh

Eu realmente não sei o que aconteceu com aquele irlandês doido, mas realmente deve ter sido algo pesado. Desde que conheci Alice, sempre pude ver o quanto ele tinha ciúmes dos machos que chegavam perto dela. Alice me acolheu no FBI, mais por questão de culpa. Foi o que ela disse para mim quando desabafei que queria minha vida de volta.
- “Vinnie”...
Nossa! Ainda posso me lembrar dela suspirando exasperada, com aquele olhar preso à tela do monitor. A mulher mesmo não olhando direto me causa calafrios. Achei que era apenas aquele olhar de predadora, mas é algo mais. È como se o próprio Inferno pesasse sobre os ombros dela...
- “Eu não devia te envolver mais do que você foi envolvido naquela Ilha”...
Argh! Só de lembrar da conversa meu corpo treme.
- “Aqui você estará seguro. Desculpe-me”!
Droga! Droga! Não era hora para ter crise de consciência. Não era bem com a mulher que eu estava preocupado, mas com o irlandês Cajun...
- Anda mulher! Onde você se meteu? Atende a merda desse telefone!
Será que aconteceu algo? Será que a gárgula pegou aquele tanque de guerra suicida? Será...
Opa!!! Aquele é o carro da Alice?
Uma freada brusca seguida de várias outras freadas bruscas. Xingamentos de motoristas mostrando a insatisfação por conta de um doido ao volante. Eu acendia calmamente meu cigarro à frente de uma vitrine e sequer olhei para trás.
Isso era serviço dos adormecidos do LSP (Louisiania State Police).
Soprava com calma a fumaça inalada. Não observava os reflexos, muito menos as pessoas ao redor.
O Festival da colheita estava se aproximando e isso me preocupava.
Seis dias... Seis malditos dias e uma gárgula se encontrava em Nova Orleans. Terra carregada de misticismo por conta de Voodoo, pântanos e um monte de Cajuns. Local que atrai turistas devido ao Mardi Grass, o maior carnaval norte-americano. Um dos momentos idéias para o desaparecimento de turistas, pois os bares ficam abertos o tempo todo, sendo tomados por multidões com os mais exóticos trajes, cedendo a fraqueza da carne, bêbados em suas algazarras sem saber os perigos que se escondem nesse tipo de festividade.
E agora...
- Mulher do céu! Quando tu resolve desaparecer é o Inferno te achar! – reclamei de uma forma que chamaria a atenção. Os cana com certeza iam me multar, mas lá estava eu o NERDão com aquela pasta debaixo dos braços, à frente de uma Vitrine que estava enfeitado com feixes de trigo, cevada, frutas e pães. Tinha até um pão bonitinho no formato do Sol e bonequinhas de milho. Gente quando é criativo, sabe mesmo como atrair os olhos e abrir o apetite.
Continuei a fumar meu cigarro, escutando todo aquele disparate de Vinnie, mas ainda observava aquele altar arrumado em plena vitrine de uma padaria e tudo o que os adormecidos ou recém despertos viam, era uma vitrine bonita, preparada para atrair o público e para um festival que se aproximava.
- Mulher!! Tá me escutando? – Dava vontade de sacudir Alice, que causava arrepio em mim com aquele olhar tão sério preso à vitrine e que nem sequer me dava um oi, vinnie, tudo bem com você?
- Agora é o período da Primeira Colheita,
Quando a fartura da natureza se dá para nós,
Para que possamos sobreviver.
Ó Deus dos campos maduros, Senhor dos Grãos,
Conceda-me a compreensão deste sacrifício
Enquanto se prepara para se entregar à foice da Deusa
E partir para a
TERRA do eterno verão.
Ó Grande Deusa da lua Nova,
Ensine-me os segredos do renascimento
Enquanto o Sol perde sua força e as noites se tornam frias.

Pronto, a mulher pirou de vez, murmurando tudo aquilo e abaixando o olhar.
- Eu partilho da primeira colheita,
mesclando suas energias com as minhas
para que possa continuar minha busca
pela sabedoria das estrelas e pela perfeição.
Ó Senhora da Lua e Senhor do Sol,
Graciosos perante os quais as estrelas interrompem sua trajetória,
Eu ofereço meus agradecimentos pela fertilidade continua da Terra.
Que o Grão pendente libere suas sementes
para que sejam enterradas no seio da Mãe,
assegurando o renascimento no calor da primeira vindoura.
Definitivamente ela pirou, pois continuou a falar tudo aquilo, esmiuçando o seu olhar de predadora para os céus que começavam a escurecer. Ah! Não dava mais. Eu tomei a coragem e resolvi tocar o ombro dela, antes que ela se tornasse um “V”.
Vinnie tocava meu ombro e olhei de soslaio na direção da mão dele e depois aos olhos dele.
Se arrependimento matasse, eu teria caído duro e estatelado no chão. Que olhar foi aquele?
- Jean não me ajudará desta vez. – Afirmei.
Como ela sabia? Eu nem tinha dito a ela que Jean tinha ficado pálido!!! Mas lá estava a mulher voltando a observar os céus novamente.
- Não e nem quero saber como você descobriu. Tá aqui as informações que você queria e pronto. Fiz meu papel de escoteiro. Posso voltar agora para o Bureau?
O garoto estava nervoso e eu não o culpava. A noite se aproximava rápida e era chegada a hora dos predadores saírem de suas tocas.

Monday, July 21, 2008

Problemas? O que são Problemas?

Aquela mulher realmente não pedia nada fácil. Às vezes fico pensando se não teria sido melhor ter morrido naquele local cheio de zumbis, onde eu e a Margeau sobrevivemos no melhor estilo Scooby-doo... Claro, só faltaram mais alguns moleques enxeridos e o cão falante. Mas do que eu estava reclamando? De um Nerd que provavelmente teria um emprego que não estaria à altura de meu Intelecto, reclamando que estava ganhando pouco, para um agente interno do FBI, eu preferia ser o agente interno, mesmo vendo com mais freqüência o que os adormecidos não costumam ver...
- Anda moleque, enquanto estamos aqui brincando de quebra-cabeças, a Alice ta lá fora, sabe-se lá onde caçando uma maldita gárgula.
Jean não precisava ter me dado um tapa na nuca para acelerar meu trabalho, mas... Pera... O que ele disse?
- CARALHO, JEAN!!! Uma gárgula? Porque você não falou logo, isso teria facilitado o nosso maldito trabalho e a mulher não taria lá fora dando uma de suicida de novo!!!
Sinceramente, o moleque me irritava. Mesmo tendo entrado para o FBI, o linguajar dele não mudava, mas lá estava ele fazendo uma nova busca com relatos surreais... Putz... Isso era o que chamamos de Padrão MIB? Ele estava dando uma de MIB?
Sorri e como foi gostoso sorrir, cruzando todas aquelas informações que só não foram encontradas mais rápidas por não existir realmente uma Matrix ainda na vida real, mas lá estavam relatos manuscritos, encontrados, praticamente roubados, histórias que falavam sobre mortes brutais, um monstro em forma feminina, verdadeiras lendas urbanas de sites um tanto quanto duvidosos, mas que possuíam um estranho vínculo com nada mais, nada menos que...
- Inquisição! – murmurei, recuando alguns passos da tela que Vinnie me mostrava tão vitorioso.
Era impressão minha ou Jean parecia pálido?
- Jean?
Meu corpo foi gelando, o mundo parecia girar enquanto o chão era retirado debaixo dos meus próprios pés.
- “olho por olho”
Não! Não era hora de Geburah vir me lembrar que a Inquisição era agente dele no combate contra aqueles que atentavam, não era hora dele me lembrar que no fundo, agimos como Inquisidores. Eu odiava quando Alice usava o nick de campo.
- Jean?
O frio parecia muito mais intenso para mim. Ainda podia me lembrar de vários relatos, de histórias contadas por Seanchaí da Ilha Esmeralda.
- JEAN?
O homem parecia ter entrado em um transe, sabe-se lá o que tinha acontecido, eles tinham uma visão muito mais apurada do que a minha. Uma visão mágica muito mais treinada, mas pô! O cara tava suando, com o olhar vidrado e pálido.
- “dente por dente”.
- R-re-úna... Tudo... – Gaguejei sem forças. Eu não sabia mais se queria tanto ajudar Alice naquele momento. O Moleque seria de melhor ajuda.
- Fique aqui Jean, você não parece estar bem. Eu entrarei em contato com a Alice.

Saturday, July 12, 2008

O Início de uma Preocupação

Eu devia relatar aqui o fato do que aconteceu após o golpe que me deram e o desconcerto dos policiais ao que perceberam seu fatídico erro, mas ao fazer isso, eu estaria fazendo vocês pensarem que a gárgula aproveitou o momento para eliminar os tolos mortais. Uma pena isso não ter acontecido, poderia ser mais divertido caçá-la depois. O fato é que enquanto me revistavam, descobrindo em um dos meus bolsos a minha identificação de agente do FBI, a maldita gárgula escapou sem que eles percebessem e claro pude presenciar aquele medo crescente nos adormecidos por terem atrapalhado o trabalho de alguém que traria muitos problemas burocráticos a eles. O desconcerto era grande demais, pois eles não sabiam explicar como alguém que deveria estar morta, desapareceu sem deixar rastros. Jean se encarregava com seu bom humor de afastá-los de mim, dando as usuais desculpas que sempre damos nesses casos.
- “A pessoa que vocês deixaram escapar, é procurada em vários países com um rol de homicídios grande nas costas. A agente Lupin apenas estava fazendo o serviço dela e jamais atiraria para matar”.
Claro que eles davam suas desculpas, alegando erro de interpretação, mas o fato é que enquanto eu vasculhava o local e o corpo que ela havia matado, pude achar os restos mortais de minhas balas que deviam estar no corpo da gárgula.
- Regeneração – murmurei em tom baixo, agachada e olhando os arredores. Nada... Nem um mínimo de calafrio, além do fato de repórteres que fotografavam ao longe. Os contatos de Madeleine fazem falta nessas horas.
Aquela fera havia retalhado tal qual uma besta selvagem faminta. Um animal irracional quando com uma presa, um alimento, mas capaz de raciocinar o suficiente para sua auto-preservação.
- Hora de pesquisar! – acendi um cigarro e fui caminhando. Ainda era interessante ver os calafrios que minha presença causava nos mortais.
- Precisa de ajuda? – Pude escutar Jean se apressando para me acompanhar. A região da Nuca ainda estava meio dolorida, tínhamos perdido muito tempo ali. Ao menos os policiais ao perceberem o erro, me mantiveram no local, me deram assistência, chamaram o FBI e não fugiram como o diabo foge da cruz. Pff! A quem estou querendo enganar? O Diabo não foge da cruz. Na verdade ele anda mais próximo disso do que nós andamos.
- A ajuda de sempre. Contate o garoto, peça para ele vasculhar mortes com o mesmo padrão que encontramos aqui, descubra há quanto tempo isso ocorre e me encontre na biblioteca.
Jean começou a rir, um riso com certa malícia aos lábios. Enquanto Madeleine tinha os contatos dela em jornalecos que sempre cobriam mortes estranhas, criando hipóteses malucas, sua parceira no combate contra seres “fictícios” buscava um moleque que se encaixaria no padrão de filmes do estilo Matrix.
- Você realmente não gosta do padrão MIB, não é? – ria de forma baixa e ele sabia o quanto isso me irritava. MIB, Matrix e todas as comparações que ele fazia, mas a pior delas era o famoso Arquivo X.
- Jean – suspirei – Você realmente gosta de ficar fazendo as comparações... Vinnie, Matrix; Madeleine, MIB; e nós, Arquivo X.
Jean caiu na gargalhada, me acompanhando até meu carro e vendo que eu fechava a porta e não o convidava para entrar. O máximo que ele fez, foi ficar sorrindo daquela forma em que qualquer mulher cairia de quatro por ele e me responder.
- A Arte imita a vida, Alice e isso torna a nossa vida mais divertida. Infelizmente não podemos reprogramar a mente dos adormecidos.
Liguei meu carro e dei um leve tapinha ao rosto dele.
- Felizmente isso não acontece, Jean, pois desta forma mais pessoas ficam atentas ao que acontece ao redor delas e assim aprendem de uma vez por todas, que Deus, Anjos e Arcanjos não são aquilo que elas imaginavam.
Acelerei meu carro, não o deixando retrucar, pois Jean sabia como retrucar em seu bom humor de sempre.
- Infelizmente, Alice. Suas esperanças foram alquebradas de uma forma que não conseguimos reverter. – Jean murmurava, vendo sua parceira praticamente fugindo de uma conversa mais longa. Ele sabia o quanto ela se sentia pressionada, pois Thorn também andava caçando monstros para sacrifícios ao Arcanjo da Morte.

Friday, June 06, 2008

Os Adormecidos

Já havia um bom tempo que eu não encontrava Madeleine e um bom tempo que eu não parava em um hospital. Jean e Thorn agradeciam no fundo de suas almas por eu estar aparentemente preservando a minha vida, mas o fato de ter sobrevivido é que os demônios estranhamente andavam bem comportados e os problemas que mais estavam surgindo vinham de pessoas normais e das quase normais.
Os adormecidos, pessoas que não enxergam a realidade, tinham bandidos, seriais killers, terroristas, pedófilos e coisas que não valiam à pena. Para esses casos que eu esbarrava, podia no máximo dar voz de prisão e atirar na perna, braço ou em qualquer local que não fosse matá-los. Geburah nem se manifestava em seu descontentamento, já que a justiça acima de tudo se preocupa apenas com os despertos e as aberrações.
Togarini, sim, parecia agitado. O arcanjo da morte, esse em especial, cuida de necromantes como eu e Thorn, mas exige sacrifícios em seu nome e se diverte quando criamos zumbis, afinal, qual é a graça de ser um necromante se você não ressuscita os mortos?
Há poucos dias atrás, para piorar, Togarini teve que aceitar dois sacrifícios a contragosto. Não tenho culpa se eram praticantes de Voodoo que para manterem suas vidas eternas, enganavam as pessoas e praticamente trocando suas almas de corpos. Nunca foi tão divertido brincar com os bruxos. Sequer precisei usar meus dons, para fazer os bruxos voltarem aos corpos decrépitos e devolver as almas dos donos aos seus verdadeiros corpos.
O problema nisso tudo é que são experiências como estas que acabam despertando as pessoas e elas dizem adeus as suas tão simplórias vidas, onde morrer repentinamente e aparecer com o corpo todo rasgado seria explicado pelos jornalistas como o ataque de crocodilos nos pântanos de Nova Orleans.
Por um momento eram esses pensamentos que me tomavam, quando meus olhos não deixaram escapar a cena de um beco.
Parei meu carro bruscamente e corri para a cena do crime. Havia tempo que eu não via uma gárgula solta e estava lá, com suas asas abertas, garras manchadas de sangue, enquanto sua cauda balançava de um lado para o outro.
Em casos comuns um policial e um agente gritam para a pessoa se afastar da vítima e gritam a ordem de prisão, mas eu não tinha tempo para isso. Atirei sem avisar, atingi aquele monstro que movia o corpo com o impacto dos tiros, recuando do corpo que estava caído. Um, dois, três. Descarreguei o pente praticamente e algumas pessoas me viram saraivando o corpo com a arma. Distantes demais para distinguirem os ferimentos que eu causava. Longes demais para reparar que aquela mulher, aos olhos vistos dos adormecidos, era uma gárgula que regenerava. Malditos seres eram aqueles que sobreviveram os tempos da Inquisição. As pessoas sempre acham que estas bestas não possuem tanta inteligência, que são mais fúria do que cérebro, mas ela deixava o corpo cair, deixava o corpo tremer, deixava que todos vissem uma maluca atirando de forma descontrolada em uma pessoa inocente e os policiais gritavam comigo, mandando que eu largasse a arma. Togarini estava ansioso. Uma gárgula, um banquete delicioso. Mais gritos e por mais que eu gritasse para eles não interferirem, que eu era uma agente do F.B.I. eles não acreditaram. Senti apenas aquele calafrio que me avisava que alguém me atacaria. A gárgula estava erguendo a cabeça, ela sorria de um modo sádico e infelizmente, tive que deixar os policiais me golpearem. Malditos sejam os adormecidos, pois eles não sabiam quem eles estavam deixando escapar.

Wednesday, May 28, 2008

Entre Amigas

Lá estava ela. A grande Madeleine Noveau. Ela odiava o meu sarcasmo, quando eu conversava e tentava sondar seus sentimentos. Madeleine sempre soube esconder bem isso de mim. Principalmente nos tempos de hoje, quando ela descobriu o grande enigma da chantagem de Geburah sobre ela.
Não a culpo. Geburah sempre jogou baixo demais.
- Madeleine...
Madeleine voltou-se para mim, era tão estranho ver-la com aquele aspecto jovem e angelical, ainda mais quando eu a conheci com aspecto de uma mulher madura.
- Alice... – Respondeu-me com um sorriso fraco, retirando as mechas ruivas do rosto.
- Vejo que está melhor! – Continuou aquela conversa que ambas sabíamos que não fazia parte de nosso social. Sempre fomos “francas” umas com a outra.
- O que você fazia lá? – Fui direta no assunto. Jean tinha comentado que Madeleine estivera no local em que caçávamos o demônio e que fora ela quem dera cabo nele. Disse-me também que a criatura ao ser atingido por ela, ficara surpresa. Infelizmente Jean não sabia o que eu sabia.
- O de sempre. – respondeu-me sem muita cerimônia. Insinuava-me que estava a fazer o mesmo serviço. Qualquer um poderia se dar por satisfeito, já que Madeleine era alguém que também caçava criaturas. Mas há uma diferença entre eu e ela. Apesar de trabalhar para Geburah, um dos arcanjos que preza pela justiça acima de tudo, Madeleine se encontrava em uma fina linha política, por assim se dizer.
- Estava mantendo o equilíbrio, Alice. – interrompeu meus pensamentos.
- Como os deixa manipular desta forma? O muro um dia ruirá Madeleine e você terá que escolher de que lado você ficará! – Vociferei. Revoltava-me ver tão passiva em toda aquela história. Madeleine sempre fora sábia, sempre soube resolver os casos. Ser justa e eu não tinha certeza se ela eliminara de vez aquele maldito demônio.
- Da mesma forma que você é manipulada, Alice. Você também andou em uma linha tão fina quanto a minha. Sabe tão bem quanto eu que tudo muda de figura, quando estamos com nossos parentes na linha do tiro.
Por um momento senti meu coração pulsar forte, minhas mãos gelarem. Poucos conseguiam me fazer sentir impotente daquela forma.
- Pare de revistar o local, Alice. Pare de procurar aquele demônio.
- Não... Posso...
- Sim. Você não só pode como deve.
Era uma ordem. Madeleine simplesmente estava ordenando que eu parasse com aquela busca.
- Só posso interferir naquilo que está em minha alçada, Alice. Por favor! Não quero perder a única amiga que possuo.
Talvez tivesse sido melhor ela dizer que sou a única pessoa em quem confia.
- Obrigada por ter interferido, naquele dia. – murmurei, enquanto saía, detestava ficar devendo favores. Odiava pensar que assim como Madeleine, eu poderia ficar numa linha muito fina ao ponto de desejar de vez romper com meus grilhões e deixar Geburah e Togarini brigarem por minha alma.
- Você sabe a escolha que fez Alice e é isso que a corrói. Ter deixado sua integridade ser corrompida...
Eu queria responder, queria dizer que a integridade dela também fora corrompida, mas no fundo eu sabia que Madeleine fez o que fez, para descobrir quem era o Pai dela e o Libertar, mesmo sabendo que isso custaria a liberdade dela.

Tuesday, May 13, 2008

Entre Pais e Filhos

A peça escura movia-se com calma sobre aquelas casas brancas e negras e era repousada diante de tantas outras mais que aguardavam o momento certo. Ele estava pensativo, sereno e belo como sempre.
- Como está tua amiga? - Perguntou-me sem olhar em meus olhos, analisando ainda o movimento que tinha feito, deixando o indicador repousar em seus lábios.
Observava-o pensativa, escolhendo as palavras que iria dizer e pude sentir que ele aguardava a resposta.
- Sempre foste sábia em tuas palavras, jamais foste impulsiva, mas algo tem te incomodado.
Suspirei com aquela constatação, pois ele estava certo e observando a posição das peças respondi de forma calma.
- Ela está bem. O'Toole também está bem, mas eles não encerrarão as buscas no local.
Ele erguia seus olhos, fitando minha alma. Ainda me pergunto se as pessoas realmente resistiam àquele olhar.
- Teus olhos te traem, Madeleine. Eles permitem que tuas emoções sejam sondadas, mostrando-nos teu elo fraco.
Respirei fundo. Era impossível manter meus sentimentos tão bem escondidos dele. Não eram apenas meus olhos que me traiam, mas o elo que ambos possuímos um com o outro. Nosso sangue.
Mais passos e pude observar outros olhares. Olhares mais sagazes e até mesmo mais traiçoeiros. Três pessoas mais chegavam. Uma sorrindo e fazendo um breve meneio cortês com a cabeça, o outro se aproximando, beijando-me a cabeça e bagunçando um pouco meus cabelos e o outro passando batido, acendendo um cigarro e se colocando ao piano.
- Cinzas, Cinzas, nós todos voltaremos. - murmurou o terceiro que chegara, fazendo um sorriso surgir naquele que se encontrava à minha frente e aos outros dois que me cumprimentaram.
- Sabes que não podes ficar interferindo o tempo inteiro, Madeleine.
A conversa voltava, me fazendo perceber que eu estava em xeque no tabuleiro. Não podia ser... Eu havia feito o movimento correto e ele me olhava novamente. Sabia pelo seu olhar que ele me censurava pelo simples fato de ter pensando que ele trapaceara.
- Ela é minha amiga. Uma das poucas que possuo. e Você também não poderia ficar interferindo.
Um riso baixo vinha dos outros dois.
- Ela o colocou em xeque, irmão. - Respondiam em uníssono, conseguindo fazer meu pai sorrir e olhar para mim.
- Um dia compreenderá, Madeleine, que entre pais e filhos, a figura muda de sentido.
O som das teclas do pianos se pronunciam, no que parecia uma insatisfação e pude perceber o rapaz que estava lá se erguendo e saindo da mesma forma que entrou, murmurando em tom baixo:
- Xeque-mate!

Saturday, May 10, 2008

Pensamentos Distantes

Ainda relia aquele pequeno bilhete em minhas mãos. Aquelas letras tão bem desenhadas mostravam a delicadeza existente na pessoa que escrevia, mas Alice sempre comentou que nas almas mais belas, é que se encontravam os maiores problemas.
Dizia-me isso, toda vez que eu comentava sobre meu fascínio por ela. Em meu "nervosismo" sempre ficava parecendo que eu mais fazia para espetá-la e tirá-la do sério do que ter alguma seriedade de minha parte.
Bom...
Talvez eu realmente seja fascinado por ela, mas às vezes odeio quando Thorn me questiona se é um sentimento verdadeiro ou se é a síndrome do Principe Encantado tentando salvar a mocinha.
Não que eu tenha ciúmes do necromante que a conhece há mais tempo do que eu, ou pelo fato de parecer que ele e a Alice são telepatas com aquelas trocas de olhares entre eles.
Não.. Eu não tenho ciúmes ou inveja ou...
- Fique atento O'Toole.
Meus devaneios foram cortados com um balde de água gelada devido àquela fala de tom baixo de quem sequer olhava para trás. Tudo bem que eu estava um pouco distraído, com aquela carta de letras tão bem desenhadas, pensando em tantas outras coisas, pulando para o que mais me assombra os pensamentos...
- Não seria melhor esperar o reforço?
Sim. Eu sempre retruco a Alice quando estamos para entrar em uma missão contra um possível demônio e sempre contesto que loucos psicopatas e desejosos de almas não podiam ter tamanha delicadeza em suas letras e cartas manuscritas. Mas, Alice como sempre me respondia da forma que ela sempre me respondia. Entrando na boca do leão com a arma empunhada e os olhos atentos aos eventos e não à razão. Tive apenas tempo de guardar a carta ao bolso e ir às pressas atrás da louca e tão fascinante, Alice.
- Alice? - Busquei minha parceira com murmurares. Tudo estava escuro, mas o local cheirava a corpos pútrefes.
- Alice? - Perguntei mais uma vez e ela não me respondia de forma alguma. Suspirei exasperado, porque ela sempre fazia isso?
- A...
Malditos sejam esses seres infernais, nunca senti tamanha dor em minha vida ao sentir o corpo sendo tacado na parede, tal qual uma bola de squash. A arma caiu ao chão. As costelas, ombro e todo meu lado direito doia. A cabeça girava, a visão começava a escurecer e a única coisa que eu conseguia dizer foi...
- A...li..ce...
Pude escutar rugidos, sons de tiro, som de espada batendo em algo sólido. Pude sentir minhas forças querendo me abandonar. Invocações sendo feitas, mais sons de tiros, de batalhas, mas o que realmente me deixou preocupado, quando comecei a erguer o meu corpo e minha visão voltava ainda meio desfocada, foi ver, não Alice com seu olhar furioso empunhando sua espada, mas Madeleine Noveau, empunhando uma espada semelhante, fitando aos olhos do que parecia ser um demônio que incrédulo. O local inteiro começava a desabar. Aquelas duas figuras pareciam imagem de uma foto grudada em minha mente, até um arrepio intenso me fazer olhar para um canto.
- ALICE! - Gritei em desespero, correndo com as parcas forças que tinha, deixando meu rastro de sangue pelo caminho, caindo de joelhos ao chão para tentar erguê-la. Mais uma vez ferida. Extremamente ferida e o som...

- ESTÃO AQUI!!!
Gritos, escuridão, vozes agitadas, imobilizações...

"Os Agentes do F.B.I. sobreviveram após o desabamento de um prédio. O Serial Killer que perseguiam, morreu durante o acidente. A cidade de Nova Orleans agradece aos esforços desses agentes que deram fim a um dos casos que vinha assombrando os turistas..."

- Da Alice eu até espero um comportamento suicida, mas do O'Toole, eu jamais esperaria isso.
Aquela voz... Como aquela voz me incomodava. Ainda mais porque o maldito Thorn estava certo, mas eu não deixaria barato.
- Eu precisava salvá-la... - Murmurei desgostoso, sentindo dores no corpo inteiro, sabendo que estava em uma maca... Mas com certeza não estaríamos em um hospital... Não por conta de Alice. E se não sou eu para protegê-la enquanto dorme, quem protegeria a todos nós?

- Sim... Você precisava salvá-la.. Principe Encantado, mas quem salvou vocês dois é uma das pessoas que você odiaria ficar devendo favores...
Odiaria ficar devendo favores? Mas quem? Então veio a lembrança... Sim.. Alice estava caída, extremamente ferida... Madeleine Noveau estava na cena. Tinha atingido o demônio mortalmente.. o Demônio estava...
Por Deus... Os demônios nunca morrem daquele jeito... ele olhava para Noveau.. Incrédulo.. Não havia ódio naquele olhar... apenas.. incredulidade...

Monday, April 28, 2008

Conversas Íntimas

O vento balançava aqueles cabelos ruivos. A Princípio não havia notado nada de diferente. Ela estava lá, observando as ondas quebrando muitos metros abaixo. Recordo-me de Noveau comentando que aquele local já foi um cenário de uma batalha dela contra a um caído, o que não deixava de ser irônico para quem a conhece como eu a conheço, mas meu corpo inteiro se arrepiou, quando ela se virou e olhou para mim. Jamais havia sentido um calafrio tão intenso quanto aquele. Minto... Era a segunda vez que ela conseguia aquela proeza.
- Ainda preocupado, Thorn?
Murmurou em tom baixo e mal consegui desvencilhar os olhos dos dela. Sim... Havia algo de diferente naquele olhar. A Irlandesa tinha olhos azuis, parecia mais velha, mais madura, antigamente. Mas, agora?
- Não. Apenas querendo saber que creme você usou para rejuvenescer. Isso são lentes?
Madeleine sorria. Um sorriso malicioso, com um andar sinuoso. Aquele ar angelical que ela possuía, apenas aumentava a sensação de perigo. Diferente de Alice, que apenas sentia calafrios quando alguém pretendia causar algum mal a ela, eu sentia calafrios quando sabia que a pessoa à minha frente era barra pesada.
- Nós dois sabemos, que você não veio em busca destas respostas.
Odiava quando ela estava certa. Madeleine não era uma investigadora à toa e ela sabia que eu não era uma pessoa comum.
- O que você sabia sobre os sonhos de Alice, Madeleine?
Tento ser curto, manter aquela conversa o mais curta possível, mas ela me rodeava e aquele suave aroma de sândalo mexia com os meus sentidos.
- Se refere aos sonhos que são da natureza dela, ou se refere aos sonhos que ela teve enquanto estava no Limbo?
Limbo? Ela tinha visto que Alice estave no Limbo? Então isso era mais preocupante do que eu imaginava.
- Não há porquê se preocupar.
Aquelas palavras vieram sussurradas ao meu ouvido. A presença dela era forte demais. Eu precisava cortar aquela proximidade e bruscamente me virei, segurando os braços dela.
- Por mais que vocês seja filha de quem você é. Não brinque comigo, jamais brinque, Madeleine. O que você sabe sobre os sonhos de Alice?
Madeleine sorriu e eu sabia que meus dedos deixariam marcas naquela pele pálida. Mesmo ela sendo quem era, demoraria um pouco mais para ela se livrar das marcas dos meus dedos. Ser um necromante às vezes tem suas vantagens. Mas a tranqüilidade naquele semblante, naqueles olhos verdes que só Ele possui, por um momento me estremeceram... E se eu não quisesse saber a resposta?
- Togarini não será traído, Necromante. Por mais que Geburah, deseje isso.
Aquelas palavras ainda ressoam em minha mente. Aquele perfume ainda paira no ar. Por um momento fecho os olhos. Nunca havia me sentido tão tentado. Ela não estava mais presente, não estava mais por ali, mas sua presença ainda era marcante.
- "Interessante como você resiste suas tentações, meu Avatar".
Nunca me senti tão feliz em escutar aquela voz sarcástica, maliciosa, sombria e perigosa.
- Você poderia ter me poupado desta conversa com Madeleine, Togarini.
Um riso baixo e sereno, foi o que obtive como resposta.

Friday, March 21, 2008

Despertando

Não sei qual foi o momento em que me deitei, mas sei que eu estava erguendo meu corpo de uma cama, escutando aquelas últimas palavras de Togarini. Meu corpo inteiro doía e e minha cabeça estava confusa. Eu não estava acordada? Estava dormindo? Então porque o Inferno não se instaurou na terra?
- Alice?
Jean se aproximava. Eu reconheceria aquela voz em qualquer canto. Mas logo eu recebia a ajuda de mais alguém. Uma pessoa preocupada com minha visão, com meus batimentos cardíacos e com a minha temperatura.
- Do que você se lembra? - Aquela voz grave e em tom baixo, me fez rebuscar o ar. O Necromante estava por ali.
- Thorn Fergunson... Jean Baptiste O'Toole... - Falei em tom baixo, tentando ajeitar meu corpo e sendo ajudada por Thorn, pelo que eu pude entender. Um riso baixo e nervoso de O'Toole que cessara no momento que comecei a falar do que realmente me lembrava.
- Togarini... Geburah... Sonhos... Tive sonhos com eles...
Um calafrio percorreu ao corpo de Anderson, Thorn e Jean.
- Conversávamos... Eles... Me mantiveram à presença deles...
Thorn mais uma vez observava meus olhos e então murmura.
- Você esteve entre a vida e a morte, Alice. Ninguém sabe como você conseguiu chegar aqui, mas algo em sua teimosia a trouxe para cá. Você passou este tempo todo sendo observada.
Respirei fundo, escutando aquelas palavras.
- Sua amiga Noveau esteve por aqui. Sua familia... - Ele frisa a palavra familia -
está bem.. excetuando tua cunhada que aparentemente se matou, depois de perder o amor de seu irmão.
Por um momento eles me viram rindo baixo... Não sei quanto tempo fiquei desacordada... Lembro de ter chegado... de ter recebido as boas vindas de Jean, mas depois disso apenas me lembro dos sonhos. Ou será que tudo foi um sonho e eles me resgataram... Não... Thorn tinha dito que eu cheguei lá... Então até a minha chegada não havia sido um sonho. Noveau? Ela ainda estava na ativa?
- Noveau? Madeleine Noveau?
Ajeitei meu corpo querendo me erguer mais rápido e Thorn me segura.
- Também não me sinto confortável com a decisão de seus amigos, Alice... Mas ela manda lembranças...
Noveau... Onde diabos Anderson e Jean estavam com a cabeça para precisarem da ajuda de Noveau? Por um breve momento eu sorrio. Geburah, não deve estar gostando nada disso.

Tuesday, February 19, 2008

Conversas - Parte III

- Preocupado?
- Um pouco.
- Ela ficará bem.
- Ela está sonhando desde o dia em que ela quase entrou no Bureau com carro e tudo.
- Sim. Eu pude notar isso também.
- Mas, por que ela não está mais agindo como um portal?
Um momento de reflexão se instalava nos agentes que viam Alice deitada naquela cama, rodeada de aparelhos. Desde que retornou, seu corpo se encontra mergulhado naquele "coma".
A seção 9 tinha contratado uma detetive para ir ao local. Alguém que conhecia Alice Lupin e que poderia ir mais a fundo. Ela mandava seus relatórios, falando sobre as atividades do Lobisomem e da Vampira. Comentando que ambos haviam se separado por conta de brigas que tiveram com o nome de Alice envolvido no meio. Disse que havia entrado em contato com o tal Lobo e que ele não representava perigo à humanidade.
Em certo ponto, ambos respiravam aliviados. Sabiam que apesar de ser quem era, aquela mulher era alguém confiável. Ela trabalhava para Geburah, também tinhas suas buscas, também tinha suas desavenças com o arcanjo, mas era mais calma e não tinha o problema que Alice tinha às costas. Alice a descobriu por um acaso. Fora imposta a trabalhar com ela uma vez em sua vida. Dizia que ela era um doce perigoso e capaz de dar dor de barriga, mas também dizia que era uma das poucas pessoas que ela confiaria a vida.
Confiar à vida... Quantas vezes Jean escutou aquilo desde que viu Alice sendo arremessada contra um vidro temperado, praticamente blindado, e aquele vidro se espatifando. Quantas vezes ele havia achado que Alice teria sua vida ceifada por suas próprias mãos se Geburah assim o desejasse? Ela sonhava naquela cama e ele sabia o quão perigoso era ela sonhando. Lembrava-se dos momentos em que ele teve seu corpo ferido nas batalhas que enfrentou, enquanto ela dormia.
- Alice caça os próprios demônios que liberta.
Jean escutou a voz de Madeleine que se colocara ao lado deles. Anderson olhava aquela moça ruiva, de pele clara e olhos verdes. Poderia ser uma perfeita Irlandesa, como comentara uma vez, mas a mesma perfeição poderia ser uma serpente a sibilar tentações.
- Isso, já sabemos, Noveau. – Ponderou Anderson.
Madeleine sorri com os cantos dos lábios e observa a agente que estava em estado de "coma".
- As coisas se acalmaram por aquelas bandas. Alecsander Lupin resolveu se afastar de tudo e de todos, tendo consciência que sua irmã gêmea está viva e longe do alcance de Julia Voslova. A vampira foi um pouco mais difícil de encontrar. – suspirou por um momento. – Há boatos de que ela ceifou a própria vida depois de ter perdido tudo.
- E eu que pensei que Vampiros não tivessem mais sentimentos. – Comentou Jean.
- Mas eles possuem. Alguns deles amam de forma mais intensa que os próprios mortais amam, Jean. Algo que vai além do amor em suas variadas formas.
Jean suspirou e ainda parecia meio perplexo, com Alice sonhando.
- Não fique preocupado com os sonhos que ela terá nesses dias. – Madeleine comentou e então começou a se afastar.
- O que sabe sobre eles? – Anderson a olhou desconfiado.
Madeleine apenas sorriu, olhando por cima do ombro, enquanto Thorn passou ao lado dela para ir visitar Alice. Por um momento olhou aos olhos de Madeleine e fora a primeira vez que o Conjurer mostrou sinais claros de quem sentia calafrios e que ainda era humano.

Monday, February 11, 2008

Conversas - Parte II

- Eles a trancafiarão.
- Não tenho medo.
- Eles a condenarão.
- Não tenho medo.
- Sua vida chegará a um fim e Togarini não terá dó de sua alma.
- Fiz o que fiz, por opção minha e não morrerei antes de ter minha vingança.
- É a vingança que a move?
- Você sabe que os mortos não eram inocentes.
- Eu sei, mas eles sabem?
Por um momento respiro erguendo meus olhos. Estava sendo observada por eles. Andavam como predadores esperando o momento de serem alimentados.
O mais velho parecia ter um olhar de lince, de quem consegue ver além das aparências, mas eu não me incomodava com ele. As roupas bem alinhadas davam-lhe um ar respeitoso. Os olhos, castanho-mel, esmiuçavam-se e ele respirou fundo voltando-se para o mais jovem.
O mais jovem parecia exaltado, andando de um lado para o outro, olhando-me e às vezes e sentindo calafrios.
- Pessoas como você, merecem o mesmo fim que dava às suas vítimas.
- Eles não farão isso.
- Olho por olho...
- Dente por dente, já conheço a ladainha.
- Eles a matarão.
- Não farão isso.
- Por quê?
- Porque eles precisam de mim.
- Eles não gostam de justiceiros.
- Não é o que fazem em teu nome? – sorri com certo escárnio.
- Eles seguem as leis.
- Não deixam de ser assassinos.
- Profissionais que salvam vidas inocentes.
- Eu salvo vidas inocentes.
Meu corpo foi arremessado contra a parede com extrema violência e pude sentir meu corpo inteiro reclamar. Minhas costas doíam, minha visão ficava turva, meu corpo inteiro tremia enquanto eu me erguia mais uma vez.
- Se eles a julgarem, sua vida termina aqui. Uma assassina pérfida que jamais terá o devido reconhecimento dos seus serviços para a comunidade.
- Qual seu real interesse nisso?
- Eu posso dizer quem matou seus pais.
Aquelas palavras reverberaram em minha alma. Há tempos eu matava aqueles párias. Vampiros, Lobisomens, Zumbis, Demônios, tudo que a humanidade ignora por achar ser apenas mera fantasia, mas nenhum deles foi quem eu busquei. O responsável pela morte dos meus pais, pelo desaparecimento de meu irmão e dos meus dias delongados em um hospício.
- Qual seu real interesse nisso? – repeti agora um pouco mais furiosa e mais uma vez meu corpo foi arremessado com tremenda fúria, desta vez contra o vidro de proteção daquela sala. Meu corpo sentiu o momento exato em que aquele vidro se partia em milhões de pedaços e a pele sendo lacerada em várias partes.
Eu caía aos pés daqueles dois homens que olhavam na direção da sala e eu mal conseguia respirar.
- Geburah! – eles gritaram.
Ri de forma baixa, agora eu sabia o nome daquele arcanjo. Togarini se aproximava de mim, tocando-me com as pontas de suas asas.
- Torne-se minha avatar, eu te darei poderes que Togarini não te deu e quando estiver pronta, eu darei em tuas mãos o assassino de sua família.
Eu ainda ria de forma baixa. Pude ver Togarini olhando em meus olhos e apenas suspirando. Ele acariciava meu rosto. Geburah estava me garantindo algo que ele jamais me ofertou.
- Não posso abandonar Togarini. – murmurei, em tom baixo e Togarini apenas sorriu.
- Você poderá morrer sendo avatar de dois Arcanjos.
- Ou isso ou morrerei da forma que você me disse.
- Como saberei que você suportará?
- Apenas quando vocês dois compartilharem seu poder dentro de meu corpo, é que você saberá.
O jovem me pegou aos braços e me ajudou a levantar. Seus olhos se assombraram quando acabei de me erguer.
Às minhas costas dois selos se mesclavam e ele olhou para o mais velho.
- Ela agüentará?
- Se agüentou até agora, quem sabe quando eles entrarem no corpo dela?

Monday, January 21, 2008

Conversas

Meus passos eram calmos naquele local obscuro. Não havia preocupações, nem mesmo eu estava alerta.
O vento permanecia parado, o silêncio inquebrável e o leve soprar da brisa, trouxe-me um sorriso aos lábios.
- Às vezes me perguntam, até quando deixarei essas coisas acontecerem.
A voz era serena. Grave mas ao mesmo tempo baixa e eu continuo meus passos, deixando minhas mãos ao sobretudo.
- Você podia ter interferido. - murmurei, erguendo meu olhar, para fitar aquela negritude à minha frente.
- Sim. Eu poderia, Alice. Mas se assim o fizesse, estaria me tornando como ele.
Observo de soslaio quem me acompanhava e ficava me perguntando se havia essa possibilidade, mas logo meneio a cabeça em negação.
- Mas para muitos, você é pior do que ele.
A risada que se seguia, era uma risada gostosa. O olhar arguto, vinha de soslaio. Ele buscava em minha alma o que eu realmente achava dele.
- Posso ser pior do que ele e você sabe disso.
Parei meus passos por um tempo, sentindo o meu cabelo roçar ao meu rosto, por ter notado algo ao chão.
- Eu conheço este lugar.
Ele suspirou de forma longa e então murmurou.
- Você sempre foge para cá. É aqui onde tudo começou.
Achei estranho tal comentário vindo dele, e então me virei. Encarei aquele semblante sereno, aqueles olhos escuros como duas jóias negras. Pude ver os cabelos dele se moverem, como tocados por uma brisa gentil que apenas o acompanhava.
- Você...
Ele se aproximou, tocando meu rosto com aquela mão delicada. Analisava meus traços e isso ficava claro pela forma que ele me olhava.
- Eu não podia dizer. Não podia exigir de você um sacrifício daquele tamanho, Alice.
Ele deixou a mão deslizar até a minha cintura e puxou-me para perto dele. Eu podia sentir sua outra mão afagando meus cabelos, poderia escutar o coração dele bater, se assim ele quisesse.
- Você estava com tanta raiva. Tão cega em sua ira. Não mentirei ao dizer que tal ira fora incômoda para mim. Eu estaria sendo hipócrita.
Riu de forma baixa, eu sabia o que ele queria dizer. Minha ira resultou nos sacrifícios mais sangrentos que pude ofertar a ele, mesmo assim ele nunca me dissera quem era que eu tanto buscava.
- Mas pude compreender, quando você aceitou a ajuda de Geburah, mesmo ele sabendo quem era seu alvo e sabendo que eu não havia contado a você.
Pude sentir, quando ele recostou o queixo em minha cabeça. A serenidade dele me impressionava por ele ser quem ele era.
- Mas...
Ele ergueu meu rosto, fazendo com que eu olhasse em seus olhos. Ele não precisava me explicar estava claro para mim.
- Era para você ter morrido naquela noite Alice. Quando Alec matou seus pais. Era eu quem guiava o corpo de Alec, junto com outros seres que estarão sempre presentes à vida dele.
Meu cenho franziu por um breve momento, mas ele me mantinha naquele abraço.
- Você tem direito de me odiar. Mas...
Ele pareceu-me pensativo por um breve momento. Talvez relembrando tempos passados, ou quem sabe escolhendo melhor as palavras que me diria.
- Foram seus olhos Alice.
Mais uma vez estranhei o que ele dizia e então pude sentir meu corpo se movendo. Não sei qual foi o momento em que me deitei, mas sei que eu estava erguendo meu corpo de uma cama, escutando aquelas últimas palavras.
"- Foram eles que pararam as nossas mãos naquela noite."

Thursday, January 10, 2008

Morte, é apenas o começo - Parte V

Meu corpo era levado às pressas, a pessoa que me carregava dizia para eu não desistir. Quantas vezes escutei aquela voz? Quantas vezes ela me saudou em meu retorno. Meu corpo era colocado ao chão, pois o frio daquele lugar era bem conhecido por mim. Eu podia escutar gritos confusos, podia sentir o sobretudo sendo aberto e ver aquele olhar inquisidor sobre a minha pessoa. Togarini estava ali, segurava o que parecia ser uma corrente fina de prata. Não sorria, apenas me olhava como se esperando uma reação minha. Geburah rangia os dentes, estava nervoso, pois dava para perceber que os poderes dele estavam sendo usados, contrariando-o em certo ponto. A ponta de sua lança repousava sobre meu pescoço e ele podia ver que não havia medo em meu olhar.
- Lute, Alice! Você não chegou aqui apenas para morrer em meus braços.
Não... Eu realmente não faria isso, não deixaria ninguém compartilhar o momento em que Geburah arrancaria a alma de meu corpo da forma mais dolorosa possível, tirando de Togarini o direito que ele tinha sobre minha alma. Anjos não são bons. Nunca foram. Entre eles também há trapaças, jogos sujos, ambições, cobiças, todos os pecados possíveis que você possa vir a imaginar e Togarini segurava aquela corrente, pois era a ultima coisa que ainda me prendia a ele. Ele até que não é tão mal, para um Anjo da morte que adora sacrifícios em seu nome. O que Geburah, nunca chegou a compreender é que usamos ele. Em sua sede de vingança, onde ele buscava a justiça acima de tudo, ele jamais compreendeu que o que eram simples mortes em nome da justiça, eram verdadeiros sacrifícios para o Anjo que sempre dediquei minha vida em busca do que era a minha vingança. Togarini nunca pode me contar que o verdadeiro demônio que eu tanto buscava era Alec, não por medo de me perder, mas por saber o quanto isso me abalaria. Já Geburah, fora a serpente no paraíso. Prometeu-me mais poderes, prometeu-me vingança, prometeu-me algo que ele jamais poderia cumprir e o pior... Eu me deixei enganar, cedi um espaço em meu corpo para ele, fiz geburah assumir o controle de algo que ele não deveria assumir e nem por isso Togarini me abandonou. Jean não compreende porque tenho tamanha devoção com um Anjo tão sanguinário, mas talvez, se ele apenas soubesse que fora Togarini quem me manteve "viva" todos esses anos, talvez então ele agradeceria este Anjo Negro.
- ALICE! ALIIICEEE!
- Acorde minha doce Avatar. Você sabe que ainda não é sua hora.
Pude escutar aquele grito de desespero. Pude sentir aquele corpo se debruçando sobre mim e os cabelos negros pendendo sobre minha face. Pude sentir aquele beijo aos meus lábios, tão cálidos e tão frios, fazendo-me rebuscar o ar. O abraço que se seguiu, não foi de quem me beijara, mas de alguém que derramava lágrimas e me abraçava.
- Bem vida... Bem vida... Bem vinda à terra dos vivos.