Tuesday, July 13, 2010

Post Mortem - I

Ela surgiu do nada, tão rápida quanto uma sombra a se mover. Alice estava cansada, exausta ao ponto que nem seu sexto sentido poderia alertá-la. Meu coração parou quando vi seus olhos se arregalarem, seu rebuscar do ar sendo curto e as mãos dela vacilarem. Vi quando seu corpo teve um último espasmo, enquanto seu coração era arrancado e aqueles olhos verdes brilharam incrédulos e em certo ponto aliviados.
Não, eu não podia crer que o coração de Alice havia sido arrancado com tanta facilidade pelas mãos de uma mulher ruiva em vestes medievais azuis. Muito menos podia crer que naquele momento agi por impulso, disparando minha arma, gritando em dor pela morte de minha parceira.
Sabia que se fossem ferimentos graves ainda teríamos como trazê-la de volta. Thorn sempre conseguiu, mesmo tendo dito que estava cada vez mais difícil. Ainda por impulso invoquei a mão direita de Deus, tendo a desagradável surpresa de que ele não me agraciaria com sua presença. Abandonara-me no momento em que mais precisei trazer justiça acima de tudo. Gritei em rebeldia, amaldiçoei o arcanjo que me acompanhou por tantos anos e que agora me recusava a morte da feiticeira. A verdadeira algoz de Angela e Alice.
Thorn parecia mais lúcido, trazia todos aqueles mortos de volta à vida, ambos evocavam magias, enquanto eu tinha apenas minha arma e algumas poucas magias em minha fútil sabedoria.
Quantas vezes Alice me disse que eu precisava ousar, que precisava aprender mais magias em meu dia a dia? Sim, eu tinha algumas magias que ela não possuía, mas de que me adiantariam se tais magias eram de cura, se podiam apenas remendar alguns ferimentos básicos. O que eu poderia fazer diante de uma pessoa que jazia caída, com o peito aberto e seu coração arrancado. Sentia-me inútil, um abandonado. Não... Ela não podia ter me abandonado. Uma horda de mortos avançavam ferozes contra feiticeira, arrancavam o coração da mão dela enquanto ela tentava se defender e atingir o outro feiticeiro.
Sim... Agora eu compreendia porque Alice tanto respeitava Thorn...
Ele erguia os mortos como escudo para seu corpo, como armas contra a feiticeira que conhecia as antigas magias, mas que não conhecia o poder da necromancia. Ela mal tinha tempo de evocar Raios ou de escapar das garras dos mortos que arranhavam seu corpo, que a seguravam cada vez mais. Deixando-a cada vez mais indefensável e assombrei... Como poderia não me assombrar quando pude ver aquelas asas crescerem, aquela aura se espalhar. Como não poderia chorar de dor, de medo e de tudo que me assolava, quando finalmente pude ver o arcanjo que eu mais odiava.
Não... Ele não assumia as formas pavorosas de tantos demônios que enfrentei. Ele crescia como uma sombra que engolia e varria toda aquela área que nos encontrávamos... Ele era belo ao ponto de desejarmos que consumisse nossa alma em seu rosto sereno e pele pálida, naqueles cabelos negros que esvoaçavam, mesclando com suas asas negras e nos abraçava congelando a nossa alma, arrancando-a de nossa carne mesclando à sua alma. Por um momento senti paz, pois não vi Alice sendo arrastada para os confins do Inferno. Vi Togarini batalhando furiosamente contra Geburah que se encontrava no corpo da Morgan. Meu ódio crescia, minha alma tremia, éramos apenas marionetes, tais quais Alice dizia que éramos em todos os dias que eu a ouvi murmurar com desgosto em sua vida.
Mesmo estando inerte, talvez tão morto quanto minha parceira, eu ainda podia presenciar o que ela não presenciava. Era um espetáculo sem par, ver todas aquelas almas se juntando, sendo manipuladas pelo Arcanjo da Morte. Os Anjos batalhavam, o prédio ameaçava desabar, os mortos avançavam... O Viking se aproximava da feiticeira de maneira implacável...
— Inquisidor!
Ouvi aquele grito, aquele comando que sempre me acompanhou. Senti as correias se apertarem sobre meu corpo me puxando para a batalha, minha alma voltando para o meu corpo e minha mão erguendo em uma direção.
— Mate-o!
Meus olhos estavam embaçados, minha mão tremia. Meu coração apertava. Ele estava de costas, iria alcançá-la. O Arcanjo da Morte ganharia se eu não fizesse nada. Alice morreu por confiar nele. Poderia estar viva... Se não fosse por ele... Se desde o início tivesse seguido...
— Geburah...
Disparei minha arma, pois a Justiça deveria prevalecer.

1 comment:

Nerito said...

É o Nemesis de uma era. Seria o fim? Fico aqui me perguntando o que será deste blog se Alice morrer. Será que você vai iniciar um arco sem a personagem? Ou será que teremos um vislumbre do Vazio?
Bem, ainda que exista a Necromancia, acho que sempre há limites para a magia. Sem falar que, se eu não estiver enganado, o Viking empacotou de vez, atingido pelas costas por um Paladino enlouquecido pela perda de seu amor. Que saudades da época em que O'Toole preparava um jantar para Alice e dizia que iria zelar por seu sono! Por mais lúgubre e sombria que fosse, ainda continha um certo grau de ternura e inocência.
Talvez, no fim das contas, tudo tenha sido uma sombria armação de Geburah. Posso ver os dois arcanjos lutando entre si, nas pessoas de seus avatares. Mas Geburah tem vantagem, em um peão a mais. E o agente duplo, que atuava nos dois lados, foi eliminado. Será tarde demais? Lógico que eu acredito que você, Tyr, tem uma carta na manga. Afinal, a verdadeira mente malévola por trás desse mundo é você... (risos) Quero dizer... você é o Deus desse mundo. Não custa nada fazer baixar uma Medida Provisória lá do Gabinete do Presidente, mandando os dois arcanjos darem as mãos e serem amigos para a última festa da Diretoria.
Agora, piadas a parte... senti falta da interrogação nas frases interrogativas. Deixa a gente um pouco confuso. Mas no mais... se Jean matar Thorn, ele vai ser demitido do cargo de personagem favorito! Não brinco mais de ser o Jean! ;-)