Wednesday, February 17, 2010

Da Morte.

Ver aquela mulher, sentada em seu trono de mortos, coberta com sangue e seus olhos vitrificados, despertou um medo que até então eu desconhecia.
Já havia a confrontado várias vezes. Em algumas, ela feriu-me deixando marcas que carrego, em outras, pude ver a alma da humana abandonar aquele corpo fraco e inútil, mas o que me estremecia sempre era sentir aquele par de asas resvalando em meu corpo e se fechando sobre aquela mortal.
O frio enrijecia meus músculos, meu coração descompassava em desespero e por muitas vezes, o retorno da alma inquiridora àquele corpo que se erguia mais uma vez, era mais aterrador quando minha alma era trespassada por aquele olhar.
Por meses ela me ignorou, após meu desafio. Por meses vi a inquisidora eliminar as raças das trevas, os humanos iluminados e até mesmo os magos.
Ela apertava o cerco ao facilitar a minha vida, eliminando os McArthur, mas zombava ao que eliminava os Morgan também.
Mortes atrás de mortes que pareciam deleitá-la a cada corpo estripado, a cada sangue derramado e a cada olhar suplicante do rapaz que o viking chamava de cavaleiro ou de príncipe encantado.
Viking este que também tinha uma aura tão aterrorizante quanto ao da investigadora, mas agora, até mesmo ele parecia se silenciar diante daquela bestialidade que crescia na mulher que ele protegia como protejo os meus.
Christine ordenava que eu matasse Alice, dizia que eu havia negligenciado meus deveres não protegendo a linhagem dela. Não encontrei minha morte, como temi logo no início de minhas obrigações. Fiz o máximo que podia, chegando o mais perto possível da morte que incorporara no corpo de uma mulher, mas... Algo dentro de mim revolvia, instigava, aumentava a besta sedenta por sangue e morte...
Foi quando ela me fez perceber que sabia que eu estava ali o tempo inteiro.
— Saiam! – Murmurou a humana para seus amigos, ao olhar fixamente para os meus olhos, enquanto eu me escondia nas sombras daquele lugar.
— Alice... Você precisa parar... Deixe-nos ajudá-la... – Murmurou o cavaleiro e senti pena do pobre rapaz em certo ponto. Era claro que ele amava aquela mulher, que seria capaz de dar a própria vida para salvá-la.
— Não há mais nada que possamos fazer, O’Toole. Venha. – O viking respondeu de modo sombrio, tocando o ombro do rapaz, deixando claro que era chegada a hora.
— Não! Sempre podemos fazer algo... Como você pode aceitar o que seu Arcanjo está prestes a fazer?
Era claro que o rapaz se referia há algo que eu sentia em todos os meus encontros com a inquisidora e ele me fez lembrar séculos atrás... De certo jovem que também seria capaz de enorme sacrifício.
— Saia seu tolo! – A voz chegara tão fria e cortante aos meus ouvidos que meus devaneios foram cortados rapidamente.
As mãos da inquiridora estavam flamejantes e seus passos mostravam-se ameaçadores, mesmo que lentos. Meu coração se rebelava, com a ameaça presente que ela fazia a quem sempre a protegeu e a amou.
Ela o mataria, mas não era mais ela... Era aquela presença...
— Mate-a... Antes que ela o mate.

Novamente aquela voz. Novamente aquela ordem... A besta dentro de mim se rebelava contra aquela ordem.
— ALICE! VOCÊ É MAIS FORTE QUE ELE!
Havia desespero naquela voz inocente, apaixonada... Desesperada...
Meus olhos se abriram, viam quando as chamas começaram a consumir alguns corpos, sendo que outros dilacerados erguiam-se ou arrastavam-se na direção dos homens que ali se encontravam.
O Viking apenas arrastava o rapaz para trás.
Não! Eu não podia deixar que ela os matasse... Nem mesmo o Viking que parecia compartilhar aquela mesma presença, muito menos o cavaleiro. Rugi ao libertar completamente a fera dentro de mim, mergulhando em direção aos mortos que se levantaram. Abri caminho para que os homens fugissem da mulher e me surpreendi quando vi os olhos do cavaleiro se arregalar...
A dor não era tamanha... O frio não era tão assustador... Como pude ser tão descuidada?

— Ninguém foge dos braços da morte.
Torci a espada, escutando aquele baixo gemer. Pendia minha cabeça levemente, observando as mãos trêmulas que tocavam a lâmina de ferro que aumentava o ferimento, impedindo o regeneramento da gárgula agir. Percebi aquele olhar implorando perdão voltado para O’Toole e Thorn e não fui sutil ao arrancar a lâmina do corpo da minha vítima e decapitá-la.
Cai de joelhos, ao lado da gárgula, respirando com um pouco de dificuldade. Era a primeira vez que eu invocava magias tão poderosas, que erguia tantos mortos e causava um incêndio tão forte quanto aquele sem ajuda extra dos arcanjos. O’Toole estava estarrecido e Thorn mal teve tempo...
— ALIC...
Não sei bem o que me atingiu, mas também foi tão surpreendente quanto minha espada no corpo da gárgula.
Escutei tiros, invocações, depois não escutei mais nada...
Havia apenas o silêncio
E a escuridão.

2 comments:

Carol said...

Quando li a primeira vez, sabia que teria que ler mais algumas porque havia algo a compreender, algo que escapava a cada linha, me parece. Alice me supreende, porque todo auge exige mais, sem um final, sem um máximo que não esperamos pelo além. Gosto muito do visual, do cenário sombrio misto de descrito e imaginável sobretudo psicológico - como sempre.

Vamos à Alice nos braços da Morte. Aqui temos o desgaste-mor da protagonista, sucumbindo à sombra. Ela pode vencer toda a dor, ela pode vencer tudo.E vai vencer.Mas, por um instante, ela precisa sentir o "mal", ela precisa desvenciliar-se do que é bom, de quem lhe faz bem. Por um momento é o que ela deseja.Não, não creio que ela se deixaria possuir, simplesmente.Sentir, eis a palavra chave deste post, a meu ver. Não são apenas palavras, não é apenas uma trama...é um feeling profundo, com visão, música e tudo. É um conto vivo, que sai da tela de modo que posso ver, na minha mente com toda a emoção. Só tenho a dizer que as letras passaram um pesar profundo demais. Maravilhoso, minha querida, nada menos que isso.

Nerito said...

Eu gostaria do direito de não comentar este capítulo. Gostaria do próximo... quero dizer... há tanto tempo este blog não é atualizado... Gostaria pelo menos de dizer que Angela merecia um pouco mais.
Fiquei sem a imagem exata da gárgula em minha mente. Isso porque eu imagino uma gárgula tradicional, mas sempre imagino a Angela como alguém muito mais parecida com a Alice. Sacrilégio de minha parte? Espero que não. Abraços.